Alexandre Teixeira é editor-executivo de Época NEGÓCIOS. Vai acompanhar neste espaço as novidades das finanças - sobretudo as pessoais.

 
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Cassandra do Jaguaré?

Volto do recesso de fim de ano e me vejo como um pessimista ranheta, desafinando o coro dos contentes com o promissor 2008. Na primeira conversa do ano com o Ivan Martins, redator-chefe de Época NEGÓCIOS, me sinto na obrigação de discordar das análises otimistas feitas nos últimos dias por gente do calibre de Gustavo Franco e Paulo Rabello de Castro sobre o cenário para os próximos 12 meses. Eles e muitos outros economistas acreditam que a crise americana se fará sentir, sim, no Brasil, mas não a ponto de nos abalar mais seriamente. Teríamos contas internas e externas sólidas como nunca a nos proteger. Sob risco de começar o ano merecendo o apelido de Cassandra do Jaguaré (onde fica a sede da Editora Globo, em São Paulo), pergunto: será?

Os últimos números da balança comercial, referentes ao terceiro trimestre de 2007, são preocupantes. As exportações cresceram apenas 1,4% ante os três meses anteriores, enquanto as importações tiveram expansão de 9,1%. Dada esta tendência, já há projeção de déficit em transações correntes. Conforme comentei num post anterior, Henrique Meirelles minimiza o problema. “A partir de um certo momento, não é necessário que tenhamos a cada ano saldos positivos em transações correntes”, diz. É o que o próprio Gustavo Franco afirmava em meados dos anos 90, com resultados conhecidos.

Outro problema é a inflação. A alta de preços não esteve no radar nos últimos três ou quatro anos – salvo nas discussões sobre a necessidade de se manterem metas inflacionárias tão apertadas. Pois bem. A discussão de dois meses atrás, sobre o risco de o BC não poder voltar a reduzir a Selic em 2008, mudou de forma preocupante. O que se pergunta agora é se Meirelles e companhia terão ou não de ELEVAR a taxa básica para manter os preços na meta.

Estou, com isso, querendo sugerir que vem aí um tsunami financeiro? Não. Fico mais ou menos no tom do texto de Guilherme Barros na Folha de hoje: “Para empresários, 2008 será um bom ano, mas menos pujante que 2007”. Acho, aliás, que sentiremos muitas saudades de 2007 em 2008.

Escrevo enquanto caem os primeiros pingos de uma chuva que promete ser forte e, talvez influenciado pelas nuvens negras lá fora, sugiro uma olhada de frente para o cenário externo.

O mercado prevê petróleo a US$ 100 o barril no ano que começa para valer hoje. Imagina-se que a instabilidade geopolítica e o aumento da demanda devem manter a pressão sobre os preços no início do ano.

Nos Estados Unidos, cresce o temor de crise econômica, com boa parte dos economistas (e dos consumidores) vendo riscos de recessão neste ano.

Benjamin Steinbruch observou bem em seu artigo de ontem, também na Folha, que é importante manter o mercado interno aquecido para compensar a possível queda de demanda no Primeiro Mundo. Mas a cada semana que passa os analistas aumentam as previsões para a inflação – o que deixa o BC numa sinuca de bico.

O pano de fundo de toda essa preocupação é a crise do “subprime” e o conseqüente colapso no sistema de crédito que ameaça a economia dos EUA e afeta a Europa – que, aliás, também reduz sua previsão de crescimento. Surgem mais e mais evidências de que grandes bancos europeus estavam expostos a títulos de alto risco no mercado imobiliário dos EUA e tiveram de ser socorridos.

A turbulência afetou pouco o Brasil em 2007, é verdade. Mas a crise nos EUA se agravou e soma-se agora ao fim da CPMF e ao aumento da inflação, o que aumenta a preocupação. O governo, é claro, poderia aproveitar a perda dos R$ 40 bilhões de receita com o extinto “imposto do cheque” para cortar gastos públicos, mas 2008 é ano de eleições municipais. Logo...

Não tome estas mal traçadas por mau humor. Meu ponto é: 2008 vai ser um ano bem mais difícil de enfrentar do que 2007. As oportunidades naturalmente vão continuar existindo. Mas os riscos serão maiores e o crescimento, seguramente mais tímido. Vai ser divertido. Se você tiver juízo.

Feliz 2008!



02/01/2008

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Tire o pó do seu DI

“Ninguém sabe o tamanho da crise nos Estados Unidos”, afirmou o presidente Lula, no café da manhã de ontem, com jornalistas. Verdade incontestável. Ele disse ter pedido a Mantega e Meirelles que acompanhem o caso diariamente. É o mínimo, não? E, sobre a CPMF, declarou que não perdeu “nem meio minuto de sono”. Lula é um otimista nato. Dizia que a crise imobiliária não atingiria o Brasil. Atingiu, e agora o presidente vai precisar de mais ponderação para lidar com a crise na economia mundial que parece estar por vir. E isso passa por uma resposta satisfatória à perda da CPMF.

Uma solução, cheia de efeitos colaterais, é o aperto monetário. O Banco Central sinaliza que o juro vai subir se a política fiscal mudar, ou seja, ficar mais frouxa. Foi o que disse ontem o presidente do BC, Henrique Meirelles, em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.

Na ocasião, Meirelles ressalvou que Lula já garantiu a manutenção do superávit primário. Mas a comunidade financeira espera ansiosa para ver como isso será feito.

Os juros podem ter que subir, também, para conter a alta prevista da inflação. Luiz Carlos Mendonça de Barros fala em um aumento de três a quatro pontos na taxa Selic ao longo de 2008, hoje na Folha de S. Paulo.

Meirelles e Mendonção são realistas ao acenar com um aumento de juros como antídoto a possíveis descontroles fiscais e inflacionários. A contra-indicação se deve ao fato de que, mesmo com os juros nos patamares atuais, o real está forte demais e já há projeção de déficit em transações correntes – problema que Meirelles minimiza. “A partir de um certo momento, não é necessário que tenhamos a cada ano saldos positivos em transações correntes”, diz. Será?

Seja como for, a alta do IPCA-15 para 4,36% em 2007 e a fala de Meirelles elevaram os juros futuros. Os contratos na BM&F já embutem expectativa de aumento da taxa Selic em 2008. Moral da história: sabe aquele fundo DI para o qual você já não dava muita bola, considerando-o resquício de tempos amargos de inflação e juros em alta? Pode ir tirando o pó.

21/12/2007

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Alívio temporário

No xadrez da crise financeira pré-Natal, o movimento de ontem coube ao Banco Central Europeu, que injetou o equivalente em euros a meio trilhão de dólares na economia, para engrossar o sopão de dinheiro disponível para os bancos de primeiro mundo em crise. Nós gostamos, aparentemente, já que a Bolsa de São Paulo subiu 2,1%.

Mas essa sopa já mostrou que engana a fome de confiança do sistema, mas não a sacia. Desde agosto, os bancos centrais da Europa e dos EUA estão despejando dinheiro no mercado. E, no caso americano, cortando juros. As medidas são necessárias e sempre surtem efeito no curto prazo, mas, passado o alívio inicial, a crise recrudesce.

Ontem, em São Paulo, o dia foi de montanha-russa, com final feliz. Os otimistas prevaleceram sobre aqueles que avaliam que o novo socorro do BCE sinaliza uma piora da crise.

No front interno, uma no cravo e duas na ferradura. A Previdência teve o menor déficit do ano em novembro, graças à melhora do mercado formal de trabalho, que eleva a arrecadação. Mas a indústria começará 2008 com baixos estoques – o menor em três anos, segundo a CNI – e os exportadores prevêem que o superávit externo caia 22% no ano que vem. Conseqüências prováveis das duas últimas notícias: risco maior de recrudescimento da inflação e/ou desaceleração do crescimento, associado a maior vulnerabilidade externa.

Pelo menos temporariamente, o “novo milagre econômico” perdeu um pouco do brilho. Mas há tempo para lustrá-lo.

19/12/2007

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Pede pra sair!

Numa primeira olhada, pode-se dizer que o pessimismo com o cenário externo é que fez a Bovespa cair 4% ontem.

E é verdade, em boa medida. Mas tem gente aqui dentro que não está colaborando. Sabe como é? Mantega diverge de Lula sobre o pacote pós-CPMF, o presidente do TSE reage contra o risco de corte no Judiciário para compensar o fim do tributo...

De todo modo, o terceiro pior pregão de 2007 foi mesmo marcado pela piora do cenário externo, com a alta da inflação nos EUA, que derrubou bolsas no mundo todo. Pela recomendação do banco americano Morgan Stanley ao investidor global de venda de ações brasileiras. E pelas previsões de aperto monetário em 2008 em resposta a uma esperada aceleração inflacionária.

O Ibovespa, que começou o mês em 64 mil pontos caiu a 59.828. A queda de ontem (4,19%), aliás, foi a pior entre as das principais bolsas do mundo, seguida pelas do México (3,42%) e da Argentina (2,62%). Sim, ainda restam polpudos 34,5% de alta acumulada na Bovespa neste ano, mas já chega a 5,04% a queda registrada em dezembro.

Não há consenso de que o Brasil tenha subitamente entrado numa enrascada. Ao contrário, há quem diga que, se o governo reagir sabiamente ao fim da CPMF (usando a tesoura), o “grau de investimento” pode vir mais cedo – caso de Alexandre Schwartsman, ex-BC, na Folha de S. Paulo de hoje.

O diabo é que, no momento mais delicado do ano, o Morgan recomendou a venda de ações brasileiras, dizendo que os papéis do País podem ser prejudicados por uma recessão nos EUA e pela desvalorização do real ante o dólar. Thanks, Morgan. O banco prevê maiores dificuldades para as empresas de varejo e telecomunicações e para os bancos.

É uma avaliação bem dura com o Brasil, no momento em que vários analistas prevêem um crescimento do PIB acima de 5% neste ano e os preços das commodities voltam a bater recordes, atingindo seu pico histórico.

Mas ela está em linha com o que pensa a média do mercado. A derrota do governo na batalha pela CPMF ameaça piorar a avaliação de risco do Brasil. A agência Standard & Poor’s, por exemplo, afirma que a classificação atual do País embute a perspectiva de renovação do tributo. Portanto, haverá uma revisão, cujo resultado dependerá fundamentalmente da resposta que o governo dará à perda de R$ 40 bilhões de receita.

De sua parte, Meirelles reafirma a manutenção de uma política fiscal austera. O mercado espera para ver. “Precisamos ouvir o governo dizer que vai manter o superávit primário e as políticas sociais”, disse Regina Nunes, presidente da S&P à Folha.

O quadro nebuloso se completa com mais uma previsão funesta da Cassandra de Washington. O ex-presidente do Federal Reserve Alan Greenspan deu entrevista à rede de televisão ABC, nos EUA, e disse que vê os primeiros sintomas de estagflação na economia americana.

É possível que gente demais esteja pessimista à toa. É possível que outros tantos estejam aproveitando a ocasião para realizar lucros, como discuti neste espaço na semana passada. Mas, se você não tem estômago muito forte para encarar a turbulência que certamente vem por aí, não tenha vergonha: Pede pra sair!

18/12/2007

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CPMF e outras incertezas

E aí, contente com a derrubada da CPMF? Tirando o palavrório irritantemente hipócrita das “lideranças políticas” pró e contra o tributo, o que sobra é um rombo de R$ 40 bi nas contas públicas. E pouco alívio para comemorar.

Pelas contas da Folha de S. Paulo, quem movimenta R$ 100 mil por ano economizará R$ 380, pouco mais de um real por dia. De todo modo, como a CPMF deixará de ser cobrada no dia 1º de janeiro, compensa adiar compras (ou pelo menos pagamentos, usando cartão de crédito e pré-datado) para 2008.

Para o investidor, embora obviamente devam ser considerados outros tributos, eu diria que o fim da CPMF será, sim, um estímulo para uma avaliação ainda mais criteriosa do desempenho e das taxas de administração de seus fundos. Se não ficar satisfeito, haverá uma barreira a menos para uma migração para outro investimento/gestor.

De todo modo, o mercado reagiu mal às notícias de ontem. A Bovespa caiu 2,90%. Dá para entender porque. O Copom indicou em sua ata que não deve mais reduzir juros tão cedo. A CPMF ruiu. A inflação nos EUA subiu. E os mercados da Europa e da Ásia despencaram. Diante de tanta má-notícia, o investidor brasileiro vendeu ações e aproveitou para realizar o lucro das últimas semanas. Até aí, tudo normal. Mas o juro futuro teve alta forte na BM&F, o que sugere temor de uma mudança mais radical do cenário e da postura do Banco Central.

Agora em patamar abaixo dos 63 mil pontos, o Ibovespa não parece tão exuberante. Mas a alta acumulada neste ano é de espantosos 41%.

De novo, a questão que se impõe é: será que há espaço para mais, em 2008? Os obstáculos no caminho são cada vez maiores. No front interno, há dúvidas sobre o impacto do buraco de R$ 40 bi aberto nas contas públicas. E temor de uma aceleração da inflação, que force o BC a subir os juros no ano que vem. Nos EUA, a inflação também surge como ameaça e pode impedir o Fed de fazer novos cortes nos juros, como vem fazendo para tentar evitar uma recessão. Para complicar, o pacote coordenado de vários bancos centrais do Primeiro Mundo, anunciado e celebrado na quarta-feira, já era alvo de ceticismo no dia seguinte, ontem.

A situação nos Estados Unidos é cada vez mais séria. A inflação americana, no atacado, turbinada pela alta nos preços dos combustíveis, é a mais alta desde 1973. Vem daí a quase certeza de que o Fed não poderá mais cortar juros. Percepção necessária para derrubar a Bolsa de Londres em 2,98% e a de Paris em 2,65%, além de contribuir para a já citada queda de 2,9% da Bovespa ontem.

Pois tampouco haverá redução dos juros brasileiros tão cedo. A ata da reunião do Copom na semana passada – que manteve a Selic em 11,25% ao ano – revela temor de que o crescimento da economia gere inflação de demanda. Já há analistas prevendo que um novo corte só virá em 2009.

A cautela do BC, mais do que compreensível, é recomendável. Traduzindo do português empolado que a caracteriza, a ata do Copom diz que: 1) a demanda segue crescendo forte e pode rapidamente levar a aumento de preços; 2) apesar do importante aumento dos investimentos, a capacidade ociosa de vários setores da indústria caiu a níveis perigosos, já faltam matérias-primas e não se sabe se a aceleração da produção será rápida o suficiente para adequar a oferta à procura; 3) os gastos do governo ameaçam jogar mais lenha na fogueira dos preços; 4) apesar de o dólar barato estimular importações, que contêm a alta da maioria dos produtos, pode haver inflação maior nos serviços.

Fim de jogo, então? Não necessariamente. Henrique Meirelles, do BC, diz que o PIB crescerá 6% no quarto trimestre. E a Cepal, que o Brasil deve crescer mais do que a média dos países latino-americanos em 2008. Isso significa que oportunidades continuarão surgindo, porém com riscos cada vez maiores. O que sugere uma revisão das estratégias de investimento nesta virada do ano. Com uma dose generosa de prudência.

14/12/2007

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O que dizem os gráficos

Comentei ontem com Fernando Góes, analista gráfico da Win (braço de homebroker da corretora Alpes), que tenho ouvido muita gente dizendo que está por vir uma grande realização de lucros na Bovespa. E investidores pessoa física vendendo suas posições por acreditar que vem queda forte por aí. Perguntei a ele o que dizem os gráficos. Eis a resposta:

“Olha, não vejo nada de forte realização, não”, afirma Fernando. “A princípio, vejo o mercado ainda forte, apesar de os EUA estarem bem voláteis e perigosos.”

Fernando está mais propenso a acreditar em altas adicionais no curto prazo. Fortíssimas, aliás. Até recentemente, ele trabalhava com a previsão de que o Ibovespa fecharia o ano na casa dos 72 mil pontos. Parece uma marca inalcançável, visto que o índice fechou o pregão de ontem em 64.741 pontos. Mas Fernando mantém, em linhas gerais, sua estimativa, apenas empurrando um pouco mais para frente a data em que a bolsa chegará a essa altura. Menos por qualquer tendência adversa de curto prazo do que pelo fato de dezembro ser um mês “curto” devido a Natal, reveillon, etc.

Enquanto os gráficos não formam nenhum desenho muito ruim, que indiquem uma queda importante à frente, o especialista diz que segue do lado “comprador” – ou seja, apostando na alta do Ibovespa. Sua atenção, no momento, está voltada para as ações da Petrobras, em trajetória ascendente forte o bastante para segurar as quedas no Ibovespa.

Pessoalmente, acredito que Fernando está sendo extraordinariamente otimista. Já acho espantoso que a bolsa esteja de volta à casa dos 65 mil pontos depois da violenta turbulência da virada de julho para agosto. Mas ele é um analista gráfico sério, um dos mais reconhecidos entre os que, em vez de olhar os fundamentos da economia e das empresas, dedicam-se a estudar os movimentos da bolsa no passado para identificar tendências que se repetem e prever viradas. É uma opinião a se levar em conta.

De resto, destaque hoje para duas boas notícias que, paradoxalmente, deixam gosto amargo na boca. No Brasil, o PIB teve o maior crescimento em três anos: 5,7% no terceiro trimestre sobre o mesmo período de 2006. O que é ótimo, mas traz de volta a preocupação com uma possível inflação de demanda no ano que vem. Lá fora, o anúncio da linha de US$ 40 bilhões para bancos atingidos pela crise do crédito agradou aos mercados, mas a criação de um megaredesconto internacional como este nos mostra o quanto é precária a situação financeira no primeiro mundo.

A melhor notícia referente ao PIB é o crescimento recorde, de 14,4%, da taxa de investimentos. A pior é o aumento de 20,4% das importações, ante apenas 1,8% das exportações. O PIB deve fechar 2007 com alta de 5% - ou até 5,5%, segundo a consultoria MB Associados.

A alta do investimento é importantíssima porque sinaliza aumento da capacidade de produção, o único antídoto às pressões inflacionárias causadas pelo próprio crescimento.

De modo análogo, a volta da confiança entre os agentes financeiros internacionais é a única coisa que pode evitar uma crise aberta na banca mundial. Sem ela, o acerto entre bancos centrais dos EUA, da Europa e do Canadá para oferecer crédito mais barato aos grandes bancos em dificuldade será apenas um paliativo de luxo.

Tendo a acreditar que o nó da liquidez vai, sim, ser desatado, basicamente porque não há interessados no caos. Mas admito que pode ser mais torcida do que análise.

13/12/2007

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Uma no cravo; outra na ferradura

O Fed, banco central dos EUA, reduziu ontem o juro básico americano, em 0,25 ponto, levando-o para 4,25%. A medida veio na direção esperada, mas desagradou a investidores de todo o mundo, que queriam mais.

Atribui-se a esta decepção a queda de 1,43% da Bovespa ontem. Menos ruim que a de 2,14% da Bolsa de Nova York. Ambas as bolsas viraram com o anúncio, no final dos pregões, depois de operarem em alta o dia todo.

Em janeiro, a taxa de juros dos EUA estava em 5,25% ao ano – e assim ficou até setembro. A partir daí, em três cortes consecutivos, ela foi reduzida em um ponto, numa tentativa de evitar que a economia americana entre em recessão.

O fato de o corte de ontem ter sido quase desprezado – ou considerado “um tapa na cara do mercado”, como disse o Financial Times – dá uma idéia do tamanho da encrenca.

A tensão no final do dia de ontem foi grande o bastante para levar o Fed a jogar água na fervura que, de certo modo, ele próprio criou. Hoje cedo, a autoridade monetária americana anunciou um plano conjunto com seus pares europeus para injetar liquidez no sistema financeiro – travado pela desconfiança geral no mercado de crédito internacional.

Funcionou, pelo menos temporariamente. O Índice Dow Jones subiu quase 200 pontos em dois minutos de pregão e manteve-se em alta nas horas seguintes. O Ibovespa acompanhou – embora tenha perdido força ao longo da tarde. Foi, portanto, uma no cravo e outra na ferradura.

Mais uma vez, a cavalaria entrou em cena a tempo de salvar o dia. Mas cada vez mais gente começa a acreditar que uma grande “correção” está a caminho. Nos últimos dias, ouvi investidores dizendo que venderam suas posições, apostando numa baixa forte nesta virada de ano e numa recuperação mais adiante, em 2008.

Volto ao tema em breve, mas adianto que consultei um dos analistas gráficos mais conceituados do mercado brasileiro – e ele não vê uma grande queda à frente.






12/12/2007

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Private equity à brasileira

A última edição da revista The Economist dedica uma página à “nova face do private equity”. E destaca o brasileiro Antonio Bonchristiano, da GP Investimentos.

A The Economist lembra que Bonchristiano abriu o capital da GP um ano antes do rumoroso IPO da gigante americana Blackstone. Nota que as ações da GP valem hoje três vezes mais do que no momento do lançamento. E que o IPO da gestora brasileira não serviu para realizar o lucro dos controladores, que, aliás, continuam no negócio.

“O hiato no private equity na América e na Europa provavelmente só vai acelerar o movimento já em curso dentro da indústria rumo às economias emergentes”, afirma a revista. E quem vai liderar esse processo é uma nova geração de gestores especializados na compra de participações em empresas. De novo, destaque para o brasileiro. “Mal entrado nos 40 anos, Bonchristiano, filho de um advogado e criado no Estado de São Paulo, combina expertise em economia brasileira com experiência internacional e uma perspectiva global.”

O artigo da Economist é um lembrete do manancial de oportunidades que há no Brasil – país que, observa a revista, convenceu os investidores internacionais de que “finalmente superou sua instabilidade macroeconômica”.


11/12/2007

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Aprenda rindo com Buffett

Mary Buffett e David Clark uniram dois dos chamarizes mais eficazes do mercado editorial contemporâneo – um título com jeitão oriental e um milionário famoso dando dicas de investimento – no livro O Tao de Warren Buffett, editado agora no Brasil pela Sextante.

O personagem se impõe. Buffett é o investidor mais bem-sucedido da história recente dos mercados e está há anos entre os três homens mais ricos do mundo. Mary, sua ex-nora, e Clark são apresentados ao leitor como “os mais destacados entre os ‘buffettologistas’”. Juntos, eles compilaram o que consideram “os aforismos mais sábios de Warren sobre investimentos, gestão de negócios, escolha de carreira e sucesso na vida”. O livro limita-se a isso: uma vasta coleção de frases do investidor sobre tudo o que diz respeito à arte de ganhar dinheiro. Com breves comentários sobre elas. Mais ou menos como o Dalai Lama faria, se quisesse iluminar seu bolso.

Escolhi algumas por preferência pessoal:

· “Wall Street é o único lugar para onde as pessoas vão de Rolls-Royce pedir conselhos a quem pega metrô”
Comentário dos autores: “Warren sempre achou estranho que homens de negócios extremamente bem-sucedidos e inteligentes, que dedicaram suas vidas a ganhar montanhas de dinheiro, peçam conselhos sobre investimentos a corretores de ações pobres demais para seguir seus próprios conselhos. E se seus conselhos são tão bons, por que não são todos ricos?”

· “Minha idéia de decisão em grupo é olhar para o espelho”
Comentário dos autores: “Warren não é uma pessoa que procure nos outros a afirmação de suas idéias, porque muitas delas são o contrário do que o rebanho está pensando. Para ganhar muito dinheiro no mundo dos investimentos, você precisa aprender a pensar de forma independente; para pensar de forma independente, precisa estar confortável com o isolamento.”

· “Tudo o que não possa prosseguir para sempre terá um fim”
Comentário dos autores: “Um preço de ação que está subindo rapidamente deixará de subir quando a realidade econômica da empresa enfim prevalecer. Pode parecer que ele subirá para sempre, mas se a empresa deixar de cumprir as expectativas que fazem o preço subir, as ações da empresa alcançarão o pico e, depois, afundarão como um tijolo (...) A maioria das empresas que agora vai bem estará mal em algum ponto do futuro.”

· “Com informações privilegiadas suficientes e US$ 1 milhão, você pode ir à falência em um ano”
Comentário dos autores: “Caia na real: no momento em que uma informação privilegiada chega até você, todo mundo já ouviu e já fez negócios com base nela”
Comentário meu: Será que Buffett está familiarizado com o mercado brasileiro?

Algumas outras, que dispensam comentários:

· “Você deve investir seu dinheiro numa empresa que até um idiota consiga administrar, porque um dia um idiota o fará”
· “Apreciamos o processo bem mais do que o dinheiro, embora eu tenha aprendido a viver com ele também”
· “Nunca pergunte a um barbeiro se você está precisando de um corte de cabelo”
· “Você só precisa ter pouquíssimos acertos, contanto que não cometa erros demais”

Isto é Buffett. O sujeito inegavelmente tem verve e, muito mais do que isso, talento para investir. Em 77 anos de vida, além das 125 máximas reunidas em O Tao de Warren Buffett, acumulou uma fortuna de US$ 52 bilhões e doou US$ 32 bilhões. Na apresentação do livro, a Sextante diz que “as citações traduzem as estratégias práticas de Warren e são úteis para todo investidor – seja grande ou pequeno”. Tenho dúvidas sobre o quanto se pode aprender de prático lendo essa seqüência de frases. Mas esta é uma rara oportunidade de se divertir lendo dicas de investimento. O que não é pouca coisa.

07/12/2007

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