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Alexandre Teixeira é editor-executivo de Época NEGÓCIOS.
Vai acompanhar neste espaço as novidades das finanças - sobretudo
as pessoais.
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Fogueira das vaidades
Quem disse que as finanças não têm glamour? No Top 100 da Vanity Fair, publicado hoje, a principal novidade é a presença de uma agressiva dupla de financistas quase no topo da lista. No quarto lugar, atrás apenas de Rupert Murdoch, Steve Jobs e dos “gêmeos” do Google, aparecem Stephen Schwarzman e Pete Peterson, da Blackstone. A revista lembra que esta firma de private-equity fez seu nome comprando companhias de capital fechado, mas rendeu bilhões a seus sócios abrindo o próprio capital. “A companhia agora tem perto de US$ 98 bilhões em ativos sob seu gerenciamento e controla ou participa do controle de empresas em praticamente todos os setores da economia”, resume a Vanity Fair.
Schwarzman e Peterson, que no ano passado apareciam em 34º lugar, agora estão à frente de Bill Clinton, Steven Spielberg, do casal Bill e Melinda Gates e do mexicano Carlos Slim Helú, que estreou na lista este ano. Coisas da “bolha do private equity”, que vive um estoura não estoura bilionário.
O veterano investidor Warren Buffet, 76 anos, também está em alta. Subiu da sexta para a quinta posição no ranking da revista, justamente no ano em que disse ao mundo que escolherá seu sucessor na Berkshire Hathaway numa espécie de reality show.
Longe do mundo das celebridades, porém, o mercado financeiro americano lambe as feridas deixadas pela crise da virada de julho para agosto. De acordo com dados divulgados hoje (veja a reportagem da Reuters), os investidores sacaram US$ 32 bilhões de hedge funds em julho. O saldo negativo é o maior em sete anos – e o resultado de agosto tem tudo para ser pior.
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05/09/2007 |
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O Brasil como porto seguro
Escrevo já no fim da tarde aqui de Londres, quatro horas à frente de São Paulo, onde a Bovespa cai quase 2%, interrompendo uma bela seqüência de altas. Não devia ser surpresa para ninguém, certo? Esta mais ou menos claro para todo mundo que a turbulência ainda não passou e as próximas semanas devem ser bastante agitadas. Ou não?
Por aqui, foi desfeito o mistério por trás do empréstimo de emergência que o Barclays teve de tomar na semana passada, recorrendo ao banco central da Inglaterra - tema de meu comentário de ontem. O banco micou com "centenas de milhões" de dólares em títulos tornados podres pelo derretimento do mercado global de papéis lastreados em hipotecas americanas de ma qualidade. A notícia é ruim para o banco, claro. Mas não chega a ameaçar a confiança nas finanças britânicas, como se chegou a temer.
De novo, o pior vem dos EUA, onde o estoque de imóveis residenciais não vendidos subiu 5% em julho, segundo dados divulgados ontem. O encalhe de moradias prontas e o maior dos últimos 16 anos, o que sugere que o pior ainda esta por vir no mercado imobiliário americano.
A expectativa, porém, e de que os efeitos do estouro da bolha dos imóveis nos EUA voltem a ficar confinados a esse setor. John Authers, comentarista do Financial Times, observa hoje que o custo dos títulos do Tesouro americano esta quase de volta aos níveis de antes da crise de liquidez começar, o que indica que já não ha tanta procura pelo papel mais seguro do mundo. Ou seja, que os investidores voltam a diversificar suas carteiras, ainda que timidamente, em busca de melhores retornos. Sendo assim, diz Authers, "é tentador concluir que o episódio (do pânico global) está encerrado".
Ele destaca em seu artigo uma única ação, para reforçar sua tese sobre a volta a ormalidade. E o papel da Vale do Rio Doce, que havia subido 93% no ano ate o início da crise, caiu 28% e já recuperou 25% de seu valor. "Isso sugere um pânico - ou fuga do risco - e não uma resposta a (uma mudança de) fundamentos”.
O jornalista do FT pondera, porém, que os pessimistas podem lembrar que, em 1998, as ações se recuperaram depois da primeira onda de pânico com a crise da Rússia e o colapso do gigantesco fundo de hedge LTCM, mas despencaram em seguida, quando surgiram mais noticias sobre os efeitos colaterais do primeiro impacto.
Outro artigo de hoje do FT mostra que a Experian, maior empresa de análise de credito do mundo, com sede na Califórnia, esta apostando alto no Brasil. A Experian fez sua maior aquisição em sete anos no mês de junho passado, ao comprar a Serasa, por US$ 1,2 bilhão. E agora informa que, com o desaquecimento previsto nas economias dos EUA e do Reino Unido, vai aumentar seu foco no Brasil e em outros mercados emergentes.
É difícil de acreditar, mas o Brasil, quase de repente, começa a ganhar ares de porto seguro para investimentos. |
28/08/2007 |
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A crise, vista mais de perto
Vista de Londres - onde passo esta semana a trabalho - a tal turbulência nos mercados não parece pior (nem melhor), apenas mais próxima. As atenções no momento estão voltadas principalmente para o banco Barclays, que mantém preocupante silêncio sobre as razões que o levaram a recorrer ao banco central da Inglaterra na semana passada. O Barclays tomou um empréstimo de emergência de 314 milhões de libras (pouco mais de US$ 600 milhões) e, ao mesmo tempo, anunciou que um de seus principais analistas de crédito, Edward Hill, estava se demitindo. Pode não ser nada, mas como o Barclays foi o primeiro a recorrer ao redesconto desde que o aperto no crédito começou, os ingleses acompanham o caso de perto.
O terremoto com epicentro em Wall Street esta chacoalhando também o mercado imobiliário britânico, em especial o de edifícios comerciais. Se a demanda por escritórios cair, os investidores que tomaram milhões de libras emprestadas para construir belos prédios corporativos durante os anos de juros baixos e dinheiro barato correm o risco de "micar" com milhões de metros quadrados prontos e sem compradores. A expectativa, no momento, e de uma queda de mais de 10% nos preços dos imóveis comerciais ao longo dos próximos três anos. Mas se a crise financeira levar a calotes e desistências por parte das empresas compradoras, o impacto pode ser muito maior.
A crise nos empréstimos "subprime" nos EUA deve ter outros impactos sobre o mercado imobiliário britânico: hipotecas mais caras e lucros menores para os bancos financiadores. A primeira vitima local e uma firma de credito imobiliário chamada Northern Rock, que já avisou aos corretores que sua taxa para mutuários pouco qualificados (justamente o tal subprime) vai aumentar 1,25% a partir desta semana. Seus negócios, claro, devem diminuir na mesma proporção em que os financiamentos ficam mais caros.
Aqui como no Brasil, ha analistas dizendo que a crise não terá impactos maiores, como a de 1998 por exemplo, porque a economia inglesa esta em boa forma e porque a demanda chinesa continua alta. Soa familiar?
Uma observação importante feita sobre o mercado britânico serve de recomendação também para quem procura boas oportunidades no mercado acionário brasileiro neste momento de incertezas profundas. Se o problema está concentrado no setor de credito, companhias capitalizadas e com bom fluxo de caixa - ou seja, que tem fôlego para se virar sem depender de bancos - são as mais recomendadas para investimentos. Mineradoras, como a BHP Billiton por aqui e a Vale do Rio Doce por ai, são apontadas como exemplos de companhias beneficiadas pela solidez financeira e pelo bom momento do mercado em que atuam, graças a forca da demanda chinesa.
Noticias preocupantes mesmo só as que continuam chegando dos EUA. Ha uma nova estimativa de perdas no mercado imobiliário segundo a qual os preços de imóveis americanos podem cair ate 10% ao final da correção que esta em curso agora. Seria o pior crash imobiliário nos EUA desde a Grande Depressão. |
27/08/2007 |
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Mundo sem tendência
Começam a surgir os primeiros cálculos sérios a respeito do impacto da crise financeira sobre a economia real. Reportagem de hoje do The New York Times mostra que alguns analistas já reduzem suas expectativas de crescimento econômico, mas a maioria continua prevendo sólida expansão até o final do ano e também em 2008.
Os cortes nas estimativas para o ano são da ordem de 0,2 ponto percentual e mantêm a previsão de crescimento do PIB dos EUA na casa dos 2% para este ano. Nada dramático, portanto.
Há até uma boa notícia em meio ao refazer geral de contas. Estima-se uma redução do déficit orçamentário americano – uma das maiores previsões de qualquer economista ou curioso que se interesse pela economia global hoje.
A incerteza, no entanto, continua grande no mercado financeiro propriamente dito. Boas e más notícias convivem lado a lado e podem provocar tumultos instantâneos. Por exemplo: o Banco da China, segunda maior instituição financeira do país, informou ontem que tem quase US$ 9,7 bilhões em títulos lastreados em empréstimos subprime americanos (veja a notícia aqui). É o maior montante já admitido por uma companhia asiática. Ou seja, eles disseram ao mercado que têm o mico na mão.
Por outro lado, o banco francês BNP Paribas informou que reabrirá na semana que vem os três fundos que congelou semanas atrás, no episódio que acelerou a contaminação dos mercados globais pela crise das hipotecas (veja a notícia aqui).
Moral da história: o mundo econômico continua sem tendência definida e, portanto, os riscos continuam em patamares beeeeem elevados. Até o final desta manhã, a Bovespa subia de leve, “animada” pela notícia de que a venda de casas cresceu nos Estados Unidos. Mas o dia foi muito ruim para as bolsas asiáticas e está terminando mal também na Europa, por medo de uma recessão americana.
Quem tem estômago fraco deve ficar longe desse jogo.
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24/08/2007 |
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SE NÃO GOSTOU, CAIA FORA
Dólar abaixo de dois reais, bolsa em alta pelo quinto dia consecutivo... Insisto: a crise ainda não acabou. Gente muito mais autorizada, aliás, está dizendo a mesma coisa. Em matéria da BBC Brasil, Robert Shiller (autor do livro Exuberância Irracional, sobre a bolha especulativa da internet) e Robert Bruner (que no mês que vem lança em co-autoria com Sean Carr The Panic of 1907, sobre o colapso financeiro daquele ano) dizem que o pior ainda está por vir. A tese, simplificadamente, é de que os efeitos da crise imobiliária americana ainda não apareceram por completo, o que só deve acontecer nos próximos meses ou anos.
Aproveito a calmaria, então, para uma sugestão no mínimo heterodoxa. Se você se culpou por ter investido em ações – seja diretamente ou em um fundo – e perdeu noites de sono nos momentos mais agudos da turbulência nas bolsas, entenda que esta não é uma aplicação que lhe sirva bem. Pelo menos não neste momento da sua vida. E pelo menos não neste cenário de incerteza que deve se prolongar por bastante tempo. Acompanhe, então, as cotas de seus fundos ou o rendimento de seus papéis. Se e quando o movimento de recuperação da bolsa zerar suas perdas ou reduzi-las ao mínimo, saque seu dinheiro e corra para a renda fixa. Não vai ser nenhuma jogada de mestre e, provavelmente, você perderá alguma coisa no processo. Mas você passará a ser mero expectador da crise financeira. E voltará a dormir sossegado.
Se, ao contrário, você passou tranqüilo pelo furacão das últimas semanas, convencido de que bolsa é investimento de longo prazo e essas oscilações são normais, aproveite: há muitas e boas ações agora baratas para comprar. |
23/08/2007 |
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Censura? Não, obrigado
Comento aqui, com algum atraso, uma observação feita por Marcos Matamoros, leitor deste blog e ele próprio blogueiro, do A Torre de Marfim. É a respeito de uma observação minha num post anterior sobre a intenção da CVM de regular, de alguma maneira, a atividade dos jornalistas que escrevem sobre o mercado de capitais. O comentário de Marcos é o seguinte:
-- Acho que a imprensa por vezes pode de fato contribuir para o pânico do mercado, mas considero péssima a iniciativa da CVM. A idéia deles, se adotada, implicaria sim em censura. Mas como a CVM não tem poder sobre a imprensa, não vai vingar.Eles não podem determinar o que e como os meios de comunicação podem ou não escrever sobre o mercado de capitais. O caminho é realmente a auto-regulação, e provavelmente a proposta da CVM vai desembocar nisso, mas não era a intenção original. Há veículos que já definem que os jornalistas não podem investir diretamente em ações, podendo apenas aplicar na bolsa por meio de fundos. Em resumo, acho que a proposta da CVM é autoritária e vai ser arquivada. Vale dizer que, desde quinta-feira, quando coloquei o post em questão no ar, a iniciativa da CVM foi alvo das mais duras críticas por parte de boa parte da mídia e de suas principais entidades. Ontem mesmo foi a vez da ANJ atacar a proposta de criação de uma regra de conduta para jornalista pela comissão. “Nenhuma instância, governamental ou não, pode se colocar acima do preceito constitucional que protege a liberdade de expressão”, afirma a Associação Nacional dos Jornais, em nota.
Pessoalmente, entendo que a imprensa contribuiu, sim, para o princípio de pânico que se viu na semana passada entre os investidores brasileiros. Mas, depois de refletir sobre o assunto, penso que a proposta da CVM envolve realmente o risco de censura. Como, no entanto, tudo o que existe até agora é um texto vago para consulta, que aliás enfatiza a idéia da auto-regulamentação, pergunto: será que a intenção é mesmo autoritária? Se for, muito obrigado, direto para o lixo. Mas não pode ser este o início de um debate, no mínimo, interessante?
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22/08/2007 |
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A CRISE NÃO ACABOU
Com o segundo dia consecutivo de alta nas bolsas, sente-se o alívio no ar. Apesar de toda a instabilidade que fez a Bovespa alternar altas e baixas nesta manhã (estava positiva em 1,62% às 13h30), a sensação geral é de que “o mercado acalmou”. Lamento ser eu o portador das más notícias, mas ainda vem muita turbulência por aí.
No fim de semana, houve até revista brasileira publicando chamadas como “foi só um susto, mas deixou marcas”. Infelizmente, não há sinal de otimismo comparável no que de melhor se tem escrito, dentro e fora do Brasil, sobre a crise financeira. Ninguém sabe, ainda, a extensão exata dos danos. Entre as perguntas sem respostas, estão as seguintes: que parcela dos empréstimos imobiliários americanos está ou ficará contaminada pela inadimplência?; de que modo essa inadimplência e o conseqüente encarecimento do crédito nos EUA reduzirá o potencial de consumo das famílias americanas?; que fundos de hedge e que bancos sucumbirão com títulos podres no caixa, realimentando a crise de confiança mundial?
Dúvidas desse tamanho no horizonte são praticamente uma garantia de que as próximas semanas, possivelmente os próximos meses, serão vividos em ritmo de montanha-russa. Com conseqüências sobre a economia real que mal se começaram a prever.
Mas isso não significa que as perspectivas sejam soturnas nem que não haja oportunidades para quem tiver dinheiro e coragem para se antecipar à esperada recuperação do mercado.
“É difícil acreditar que a liquidez que fluía tão livremente apenas um par de meses atrás tenha se reduzido a um pingo d’água. Não seria inusual ver o capital retornar em volume substancial uma vez que alguma ordem tenha sido restaurada”, disse Carl Tannenbaum, economista-chefe do LaSalle Bank de Chicago, em uma enquete de especialistas promovida pelo jornal Financial Times.
Quanto isso acontecerá é muito difícil de prever. “É preciso que investidores vejam correções de preço como oportunidades, e não novas razões para vender”, afirma Tannenbaum.
No mesmo material do Financial Times, Adrian Mowat, estrategista-chefe da JP Morgan Securities para Ásia e outros mercados emergentes, diz que vê, sim, essa correção como uma oportunidade de compra. “Nós acreditamos que o impacto direto dos problemas de crédito nos EUA sobre a Ásia e os mercados emergentes vai se provar limitado. Nosso conselho é comprar (papéis de) companhias com forte crescimento das receitas em vez de ações mais defensivas”, afirma Mowat. A recomendação é para mercados emergentes em geral, sendo que o estrategista sugere a investidores globais preferência por empresas das Filipinas, da China, do Brasil e da Tailândia. “Nós também recomendamos aos investidores que comprem (papéis de) construtoras residenciais e companhias que se beneficiem de um aumento global nos gastos de capital”, diz Mowat.
Com a necessária ressalva de que os analistas citados não se referem especialmente a Brasil, leve a sério, sim, o que eles começam a dizer de mais objetivo sobre como se dar bem enquanto o mundo parece paralisado. Mas tenha em mente que a crise das bolsas, definitivamente, ainda não acabou.
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21/08/2007 |
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Porque caem as ações
Usei a palavra pânico no comentário que publiquei mais cedo e fiquei me perguntando se não estava exagerando. Entendo que nós jornalistas temos, ainda que involuntariamente, contribuído para jogar gasolina no fogo da crise financeira ao entupir jornais, programas de tevê, sites e blogs com manchetes assustadoras. Até ontem, era desconcertante ver que, enquanto os principais portais brasileiros de notícias destacavam a “turbulência nas bolsas” e as “ações despencando”, os sites de notícias americanos às vezes nem punham a crise financeira em suas primeiras páginas.
Nesse sentido, a decisão da CVM de abrir consulta pública para um projeto de acompanhamento (a palavra é minha) de “jornalistas da mídia especializada que, no exercício de suas atividades, formulem comentários sobre investimentos em valores mobiliários” parece fazer sentido. Ainda pouco clara, a proposta da comissão reguladora do mercado (clique aqui para ver o edital e consulte o item 3 para ler o trecho referente à imprensa) é criar um porto seguro para jornalistas. A idéia parece ser criar algum tipo de auto-regulação para quem escreve (ou fala) sobre ações na imprensa. Pode ser uma boa prática, se não tiver nem cheiro de censura.
De qualquer modo, fiquei aliviado (profissionalmente, ainda que preocupado por motivos óbvios) ao ver um despacho de Joanna Ossinger no The Wall Street Journal Online (2:13 PM, horário de Nova York), aberto assim: “À medida em que a liquidez seca ao redor do globo, sinais de pânico do investidor começam a emergir”. Quando um jornal como o WSJ usa a expressão pânico em sua principal matéria do dia, é porque as coisas realmente ficaram feias.
O artigo de Joanna é ótimo, assim como muita coisa que vem tentando explicar porque, de repente, o chão sumiu sob nossos pés. A melhor síntese que ouvi até agora veio, porém, de um leitor deste blog, Antonio Sanches: “As ações estão caindo porque ninguém está comprando.” Parece óbvio, é óbvio, mas aqui há uma observação importante.
Se, por exemplo, as ações da Vale do Rio Doce estão caindo, não é porque os investidores descobriram algo errado com a companhia. A empresa é muito bem administrada, ganhou investment grade antes do Brasil, o mercado de minério vai bem, obrigado, e a China vai continuar demandando ferro suficiente para manter a Vale ocupada – e seus acionistas felizes. Acontece que, com as bolsas caindo forte no mundo todo, ninguém parece ter coragem de comprar, novamente só por exemplo, as ações da Vale. E do outro lado há muita gente (incluindo gestores de fundos, pressionados por pedidos de resgate) querendo vender esses papéis. Ora, a lei mais manjada do mercado diz que quando há muita oferta e pouca demanda por qualquer coisa, o preço dessa coisa cai. É só por isso que as cotações da Vale estão caindo.
Naturalmente, em algum momento, alguém há de notar que os papéis da Vale ficaram baratos demais. Como a empresa é boa, é certo que as ordens de compra voltarão a ser dadas. E, por conseqüência, as cotações voltarão a subir – ainda que não necessariamente até o ponto onde estavam antes da crise. Reproduzido por todo o mercado, esse movimento de volta à racionalidade, teoricamente, levará o Ibovespa e os demais índices de volta ao azul. Teria-se, então, a recuperação dos mercados, depois da chamada correção.
Isso, claro, se e quando o pânico passar.
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16/08/2007 |
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A ESCOLHA DE SOFIA
A crise ficou séria. É fato. Há cheiro de pânico no ar.
Na agência bancária mais próxima de onde estou, há uma pequena fila de correntistas querendo resgatar suas aplicações. A gerente, uma moça de seus trinta anos, está meio atordoada. Tenta explicar que esta é a pior hora para se sacar dinheiro de uma aplicação qualquer. Porque é uma decisão 100% emocional e porque o mais provável é que, em algum momento, as coisas se acalmem.
Ela tem razão. Em parte. Se você perdeu dinheiro na bolsa ou em fundos nos últimos dias e opta agora por resgatar seu investimento, deve saber que está assumindo o prejuízo. Se, daqui a um mês ou dois, os mercados voltarem à normalidade, você vai se culpar por ter se precipitado e jogado dinheiro fora. Eu já perdi algum dinheiro, de um fundo de ações e de um multimercados com um pouco de ações na carteira. Resisto muito a tomar, no calor da hora, uma decisão de que posso me arrepender depois.
Por outro lado, é preciso ser honesto e dizer que a crise pode não ter piso. As bolsas estão despencando enquanto escrevo este comentário. Abriram esta manhã em queda de 5% em São Paulo e agora (por volta das 13 horas) estão caindo cerca de 4%. No ritmo em que vamos, há um risco concreto de perdermos todos os pontos conquistados pelo Ibovespa desde janeiro em mais uma semana. E ninguém sabe onde isso vai parar. Em crises como esta, os mercados não têm chão. Se é assim, é perfeitamente razoável (ainda que arriscado) tomar a decisão de aceitar as perdas e sacar o dinheiro investido em ações ou em fundos de ações. Se o mundo financeiro desabar, você estará salvo – ainda que um pouco mais pobre.
É uma escolha de Sofia, e ninguém responsável vai te dizer “relaxe, vai dar tudo certo” nem tampouco “fuja enquanto é tempo”. Você terá que decidir de acordo com a sua situação pessoal ou familiar. Nessas horas, é fácil repetir: bolsa é investimento de longo prazo. Um colega debochado aqui da redação costuma emendar: “mas a vida é curta”. Ele tem razão. Uma coisa é você dizer que aplicou parte de seu patrimônio em ações com horizonte de 10 anos quando vê seu dinheiro se valorizando gradualmente ao longo desse período. Outra coisa, que a maioria de nós nunca viveu, é ter de se apegar àquela disposição inicial de longo prazo, vendo a poupança de sua família corroída pelas extravagâncias de hedge funds americanos.
De qualquer modo, a questão do prazo tem de ser decisiva nessa hora de se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. Ninguém tem dúvida de que, por pior que seja o estrago financeiro nas próximas semanas (quem sabe meses), as bolsas em particular e os mercados em geral tendem a voltar aos patamares pré-crise no longo prazo. Defina longo prazo, você pode me pedir. Um par de anos, eu diria, sendo propositadamente vago. O que quero dizer é que, se você acha que pode mesmo esperar por dois, três, cinco anos, para reaver o dinheiro que expôs ao risco das ações, aí sim, relaxe e aprecie o funcionamento do mercado. Do contrário, estabeleça um limite de perdas que você pode suportar e, se ele chegar, jogue a toalha.
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16/08/2007 |
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Imóveis e consumo nos EUA (parte 1)
O empresário Antônio Sanches, investidor com boa experiência em bolsa e leitor de primeira hora deste blog, levanta questões interessantes sobre a crise no mercado imobiliário americano – epicentro da turbulência financeira global das últimas semanas. A principal pergunta dele é, a rigor, a que o mundo todo está se fazendo agora: até que ponto o consumo nos EUA deverá ser afetado pela crise nas hipotecas de baixa qualidade (subprime)?
Quem ajuda a responder é Alex Agostini, economista-chefe da agência classificadora de riscos Austin Rating.
Agostini acredita que dificilmente o consumo nos EUA será afetado, pois, pelas evidências levantadas até o momento, o foco dos problemas está restrito ao mercado de hipotecas e não afeta as demais linhas de crédito.
Para afetar o consumo, na visão dele, seria necessário que a crise ultrapassasse as fronteiras do mercado financeiro e atingisse as perspectivas dos consumidores. Ou seja, o americano médio só reduziria seu ritmo de consumo agora se fosse levado a acreditar que terá problemas econômicos no médio prazo. É assim, aliás, que se formam os ciclos viciosos na economia.
Normalmente, essa percepção pessimista sobre o futuro é provocada por efeitos negativos na renda e no emprego. Ou seja, o camarada vê amigos perdendo empregos, familiares perdendo seus imóveis por falta de pagamento, trabalhadores autônomos reclamando de quedas no volume de negócios... Aos poucos vai se criando um clima ruim que leva a um apertar de cintos geral. Não há indicadores, porém, de que seja essa a situação nos Estados Unidos. “Pelo contrário, a renda continua crescendo moderadamente, e o emprego segue seu curso natural, sem superoferta ou escassez de postos de trabalho”, diz Agostini.
De modo geral, não há indícios claros de desaquecimento da economia americana – muito embora cada novo indicador seja recebido com um sobressalto. Quando o PIB dos EUA cresceu apenas 0,6% no primeiro trimestre deste ano, muitos acharam que era o início da recessão. No segundo trimestre, porém, o crescimento foi de 3,4%!
Feitas essas ressalvas, é preciso dizer que o risco de que um colapso no mercado imobiliário leve os americanos a reduzir suas compras é sério, sim, já que o consumo é o motor da maior economia do planeta.
Agostini não tem dados precisos sobre o peso do mercado de subprime no sistema de crédito americano, mas está convencido de que ele é significativo. Para quem vive no Brasil, onde o mercado imobiliário não chega a representar 3% do PIB e os bancos são superexigentes para financiar a compra de casas próprias, é difícil entender o tamanho da encrenca.
Para começar, o mercado imobiliário nos EUA responde por aproximadamente 60% do PIB. Além disso, as facilidades para se comprar imóveis por lá são incomparavelmente maiores, e as exigências, bem mais brandas. Para completar, a cultura de financiamento imobiliário barato e de longo prazo é fortemente arraigada. “Enquanto por aqui financiamos um imóvel em 240 meses e com taxa de 1,4% ao mês, em média, lá o normal são 360 meses, com taxa de 5% ao ano!”, compara Agostini.
Outra diferença é a leniência com maus pagadores. No Brasil, historicamente, os riscos de ser despejado do imóvel que se está comprando por falta de pagamento sempre foram mínimos. “A legislação protege o caloteiro nesse segmento”, diz o economista da Austin. “Lá não. Se o cara não paga, perde a casa quase que instantaneamente.” Por outro lado, as restrições para se financiar a compra de um imóvel são quase inexistentes – o que, em um momento de crédito farto e barato, levou à formação da famigerada “bolha do subprime”. |
14/08/2007 |
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Bovespa e subprime O informativo de agosto do Instituto Nacional de Investidores traz duas contribuições importantes para quem tenta entender o que se passa neste momento na Bovespa e no mercado americano.
A primeira é um estudo sobre o impacto do investidor estrangeiro nas altas e baixas da bolsa paulista. Conclusão: “(agora) há números para mostrar o que já estava no consciente coletivo, que o investidor estrangeiro representa muito do movimento do Ibovespa e que o investidor individual, mesmo tendo uma participação grande no movimento da bolsa, ainda não consegue segurar esse fluxo. É possível que, com o crescimento da filosofia de fazer poupança em bolsa e com a entrada de mais investidores de longo prazo, esse quadro se torne menos volátil.”
A segunda é uma tentativa de explicar, afinal, porque o colapso das tais hipotecas subprime ameaça a saúde da economia americana – e, por tabela, do planeta. Um trecho: “O grande receito de uma queda nos empréstimos imobiliários americanos é porque o consumo de lá é financiado, em parte, por hipotecas. É hábito do americano usar sua casa para conseguir empréstimos e consumir. Se há retração nesse mercado, há menos dinheiro para consumo, conseqüentemente, reduz-se a expectativa de crescimento econômico.
Clique aqui para ler a íntegra do informativo.
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13/08/2007 |
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"Deus é brasileiro"
A pedido deste blog, o professor Alberto Borges Matias, economista do Campus Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, selecionou alguns “slides” de sua base de dados sobre o mercado americano que ajudam a analisar as perspectivas econômicas. Clique no gráfico abaixo, para começar. Grafico.ppt.
Repare na enorme flutuação da taxa básica de juros nos Estados Unidos. Ela cai de 6% ao ano em 2000 para 1% ao ano em meados de 2004 e depois sobe para os atuais 5% ao ano.
Agora veja este slide:

Ao longo das últimas duas décadas, os spreads caíram bastante no mercado americano, obrigando os bancos de lá a se ajustarem a um cenário de margens menores. O que o gráfico acima mostra é uma redução de 14 mil para cerca de 8 mil instituições financeiras nos Estados Unidos.
Enquanto os bancos americanos se fundiam ou fechavam as portas, o governo inundou o mercado de títulos do tesouro para financiar uma dívida pública crescente. Foi o chamado acréscimo de liquidez que gerou expansão do mercado de crédito.
“Se você conjugar esses efeitos, verá uma enorme concorrência das instituições financeiras que sobreviveram, em um mercado líquido, com taxas de juros baixas. Uma maravilha para a criatividade financeira, notadamente em mercados derivativos. Foi a festa no mercado imobiliário, hipotecário”, diz o professor Matias. “Agora temos instituições financeiras quebradas no mundo desenvolvido e em países emergentes, exceto Brasil, socorridas por processos de resgate, com aumento de liquidez.”
Matias se refere às injeções de recursos no mercado para garantir a solvência dos bancos, que vêm sendo aplicadas pelos principais bancos centrais do mundo (mais de US$ 300 bilhões só entre quinta e sexta-feiras da semana passada). Com tantos dólares e euros novos na praça, as taxas de juros de mercado (que nada mais são do que o custo do dinheiro) tendem a cair – lá fora. O risco de toda e qualquer operação financeira estará, no entanto, elevado pelo receito de desdobramentos da atual crise. “Assim, teremos um período maior de incertezas”, prevê o economista.
Quanto ao Brasil, Matias pondera que o País é pouco internacionalizado do ponto de vista bancário – “nossas instituições financeiras apresentam baixo relacionamento internacional, basta ver os balanços”.
Além disso, ao contrário do que se viu na segunda metade dos anos 90, desta vez contamos com bons fundamentos econômicos a nosso favor. “Temos elevada reserva cambial e podemos bancar saídas de capital especulativo”, afirma Matias.
Em resumo, voamos em plena turbulência, mas o avião parece perfeito e segue no piloto automático. “O governo não sabe o que fazer e nada fará de útil”, diz o professor.
Sua previsão para o ano é elevação do PIB ao redor de 5%, com manutenção de taxas elevadas de juros básicos (Selic) e ampliação dos prazos de financiamento, apesar da bolsa em queda. “Deus é brasileiro, não tenha dúvida disto.”
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13/08/2007 |
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A visão de um ex-BC (parte 1)
Com agravamento da crise nas bolsas do mundo todo desde ontem e perdas acumuladas de quase 11% na Bovespa em dois dias, duas perguntas devem estar na cabeça do investidor:
1) Já dá para dizer que o cenário benigno dos últimos meses (anos...) mudou e tudo o que podemos esperar é que o pouso (da economia americana) seja suave? 2) O que fazer para se proteger da tempestade desencadeada em Wall Street?
Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central nos anos Armínio Fraga e atual comandante da Mauá Investimentos, arrisca-se a responder a este blog em pleno calor do momento. Confira a primeira parte:
A crise, para ele, não é um fenômeno ligado aos fundamentos das economias, mas sim um processo de “desalavancagem” – grosseiramente falando, redução das apostas feitas quando o clima era de otimismo exacerbado.
Esse processo estaria gerando o que Figueiredo chama de “grande empossamento de liquidez”. Em livre tradução, isso significa que o dinheiro que estava fluindo para investimentos de risco (bolsas em geral, mercados emergentes como o Brasil, hipotecas, etc) passou a se concentrar em portos seguros, como os títulos do tesouro americano. Este movimento, por sua vez, gerou uma espécie de pânico financeiro.
Figueiredo prevê que, com a atitude coordenada e firme dos bancos centrais das potências econômicas (o europeu injetou mais euros na economia ontem do que depois do 11 de setembro e o americano já interveio três vezes hoje), o quadro tende a se reverter, com o mercado se acalmando. “Eu diria que precisamos ter um fato novo e importante para os preços (dos ativos financeiros) piorarem muito mais”, afirma.
Se isso vai abalar o quadro macroeconômico mundial, ainda não dá para dizer. “Mas parece difícil que isso aconteça de maneira relevante. A ‘crise’ teria de se agravar e se prolongar por muito tempo.”
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10/08/2007 |
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Dívidas boas e ruins
Já viu nas livrarias um livro chamado Dívida Boa, Dívida Ruim (Best Seller, 266 páginas, preço sugerido de R$ 29,90), de Jon Hanson? Não chego a recomendar a compra, mas, se tiver cinco minutinhos livres, dê uma olhada nisso.
Hanson divide as pessoas em duas categorias: consumerati (“os esbanjadores, que vivem no limite de suas posses e, em geral, nunca pensam no futuro”) e econo-sábios. O livro traz, na orelha, um dos clichês mais apelativos do gênero: “um bom primeiro passo para um consumerati afogado em dívidas evitar o prejuízo cada vez maior em suas finanças é ler este livro.” Sei...
Como o título sugere, o mote de Hanson é o de que nem toda dívida é ruim. “Assim como nem todo tipo de gordura faz mal à saúde, nem todo tipo de dívida faz mal ao bolso.”
Jon Hanson trabalhou mais de 20 anos no setor imobiliário. Publicou esse livro, agora lançado no Brasil, em 2005. Oito anos antes, sofreu “uma experiência de quase-morte financeira” que serve de abre-alas, em estilo envolvente, para sua história. “Imaginei que o obituário diria: “Jon Hanson (41), de Pickerington, Ohio, morreu na terça-feira de complicações que tiveram origem na falta de disciplina, na incapacidade de adiar o prazer de consumo e na falta de discernimento sobre os assuntos financeiros...” O autor, à época, devia quase 79 mil dólares à Receita americana. E, exceto por isso, estava em ótima forma. Diagnóstico: stress em estado bruto. Hanson acabou acertando as contas com o fisco e, desde então, dedica-se a “divulgar a mensagem de Dívida Boa, Dívida Ruim, cuja lição mais elementar é: “o passado é passado – a não ser que você ainda esteja devendo por ele”.
Hanson é imodesto o bastante para abrir capítulos de seu livro citando a si mesmo. Mas trabalha com conceitos que não desmancham fácil no ar. Os principais são: dívida boa – aquela que aumenta seu patrimônio líquido, que o ajuda a ganhar dinheiro, aumenta a receita atual ou a capacidade de previsibilidade das receitas, como o crédito imobiliário com um nível seguro de exposição; dívida ruim – aquela que reduz o patrimônio líquido ou o fluxo de caixa e absorve ganhos futuros, como dívidas contínuas de cartão de crédito.
Ele também é bom de pesquisa e trabalha com fontes diversificadas. Cita, por exemplo, O milionário mora ao lado (Manole, 1999) para mostrar que, em geral, os milionários que se fizeram sozinhos poupam ou investem de 15% a 20% do que ganham.
E ele gosta de metáforas: “praticamente não se observa o acúmulo de colesterol nas artérias até o fluxo de sangue restrito começar a provocar problemas (...) Há um processo semelhante em ação com nossas finanças.” Hanson cunha termos bem pensados, como “dividabetes” e compara seu programa de “saúde e boa forma financeiras” à Dieta de South Beach.
Dívida Boa, Dívida Ruim , segundo o autor, destina-se a dois grupos distintos: "aqueles que percebem estar tateando às cegas, financeiramente falando, e aqueles que estão se saindo bem, mas pensam que poderiam melhorar um pouco.”
Além de bem escrito, o livro é bem editado. Usa recursos como “tabletinhos de caldo de carne literário com sabor financeiro” (informações curtas, divididas por tópicos), humor à vontade e cartuns com “lições de frugalidade financeira”. “Só precisamos acrescentar natureza humana às finanças para torná-las tão divertidas quanto trágicas”, ensina.
Ao longo de suas 266 páginas, este livro pretende responder a questões do tipo “como se deve encarar a dívida?” ou “as dívidas são boas ou ruins?”
Hanson lista quatro conseqüências principais das dívidas: perda de liberdade (“você trabalha por prazer ou para evitar o sofrimento de perder seus bens?”), perda de fluxo de caixa (“só é percebida quando começam a faltar trocados no bolso”), perda de tempo (“se está devendo, você deve estar em algum lugar diferente daquele onde gostaria de ficar”) e perda de oportunidades (“quando virmos uma grande oportunidade de ganhos financeiros, é improvável que possamos aproveitá-la, pois estaremos financeiramente incapacitados para tanto”).
Pensando bem, se suas contas estão fora de controle e você acha que uma leitura rápida e bem-humorada pode ajudar, este talvez seja o livro.
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09/08/2007 |
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Fique onde está!
Rodrigo Bresser Pereira, comandante da Bresser Administração de Recursos, é gestor de um fundo de ações, um fundo multimercado bem estabelecido e um novo fundo de hedge de estratégia mais agressiva. Bresser diz que está "um pouco comprado" em ações, e, como quase todo mundo no mercado, está perdendo hoje, com a queda da Bovespa - depois do excepcional resultado de ontem. O risco, segundo ele, é calculado. "Os fundamentos continuam bons, dentro e fora do Brasil", diz o filho do ex-ministro Bresser Pereira. Logo, não faz sentido simplesmente sair da bolsa.
Bresser diz que nesses dias de montanha russa no mercado, os investidores ligam mais e alguns optam por resgates. É natural, visto que o nervosismo é grande lá fora. E, aqui dentro, quem vê a bolsa caindo ou as cotas de seu fundo encolhendo fica nervoso também. De sua parte, como gestor de fundo, Bresser diz que está operando posições menores. E sendo muito mais cauteloso.
E o que diz ele aos investidores nervosos. “Eu acho que não é para mexer em nada agora”, afirma. O risco financeiro aumentou no mundo todo, devido à crise das hipotecas americanas. As bolsas, por sua vez, estão sofrendo com a redução da disposição dos investidores globais em correr riscos. “Mas eu não vejo os Estados Unidos entrando em recessão e arrastando o mundo junto por causa disso.”
“Como pessoa física, acho que vale a pena manter sempre uma posição em bolsa, quase independente do cenário”, diz Bresser. Se você está fora, não é hora de entrar mais agressivamente, claro. Se está dentro, não é inteligente sair correndo, levando junto as perdas das duas últimas semanas. Não há tendência definida no momento. Depois da vigorosa alta de ontem, a bolsa abriu caindo 3% esta manhã e, no momento, está negativa em 1,8%. Ninguém garante que não vai virar de novo nas próximas horas e fechar em alta. Num cenário tão incerto, qualquer decisão mais séria de investimento deve ser adiada – se isso for possível, claro.
Grosseiramente falando, fique onde está.
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09/08/2007 |
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Ainda sobre os bancos
Roberto Caliani, sócio da corretora SLW, tem visão igualmente otimista sobre as perspectivas para os papéis de Bradesco e Itaú.
Ele explica que, antes da cisão Bradesco/Bradespar, a preferência de seus clientes investidores era por Banco Itaú, pela forma simples de estudar as operações bancárias na apresentação do seu balanço, enquanto o Bradesco tinha uma complexidade maior, com as várias empresas em que participava.
Após a cisão, houve uma forte valorização das ações do Bradesco, que passou a dividir as preferências com o Itaú entre os papéis do setor bancário, graças à simplificação da análise de resultados.
Caliani nota que o crescimento exponencial dos lucros das duas instituições é proporcional ao aumento da demanda por crédito no Brasil. Graças, naturalmente, à queda dos juros e ao alongamento de prazos para financiamento de bens de consumo.
A margem para crescimento da captação de recursos e da oferta de empréstimos ainda é enorme – e com os custos fiscais repassados ao consumidor. É, portanto, um momento bem mais favorável aos bancos do que o vivido nos tempos de inflação alta. Naquela época, as instituições bancárias ganhavam com o chamado "float", mas tinham de arcar com esses custos. Além disso, as operações eram de curto prazo e tinham risco bastante concentrado. Hoje, é possível fazer projeções de prazo bem mais longo para o crescimento dos lucros dos bancos.
Conclusão: levando em conta o retorno que o setor bancário ainda pode oferecer nos próximos anos, e com os atuais fundamentos mantidos, a recomendação da SLW é de compra.
“Continuo com preferência pelo Banco Itaú pelo maior e mais estável histórico de retorno”, diz Caliani.
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08/08/2007 |
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Ações de bancos
Bradesco e Itaú deram show do bilhão outra vez esta semana. Ambos anunciaram lucros de pouco mais de R$ 4 bilhões no primeiro semestre deste ano – com vantagem para o Itaú por um nariz (R$ 9 milhões) de vantagem. Os resultados dos dois bancos são mais de 30% superiores aos do mesmo período de 2006.
Para quem investe em ações, o que isso significa? Que Bradesco e Itaú adaptam-se a qualquer cenário econômico e vão continuar se valorizando sem parar? Ou, pela repetição de excelentes resultados ao longo dos últimos anos, seus papéis podem já ter chegado ao pico e, daqui para frente, terão dificuldade para subir? Eis a visão de Aloisio Lemos, analista de bancos da corretora Ágora:
“Temos recomendação de compra tanto para Bradesco quanto para Itaú, ambos compondo nossa carteira recomendada com perfil moderado”, diz ele. Em 2007, até o momento (meio-dia de hoje), as ações do Bradesco têm alta acumulada de 20%. As do Itaú subiram 13%. Ambas estão com desempenho abaixo do Ibovespa (+24% no ano). “Vemos espaço para valorização das duas ações, com preço alvo de R$ 60,00/ação para Bradesco e R$ 102,50/ação para Itaú”, afirma Lemos. O potencial de valorização, partindo das cotações do momento, seria então de 17% para Bradesco e 20% para Itaú.
Estes bancos, assim como todo o setor bancário no Brasil, têm mostrado crescimento consistente nas carteiras de crédito, notadamente em pessoas físicas (veículos, crédito consignado, cartões de crédito, dentre outros produtos) e pequenas e médias empresas. As perspectivas de continuidade do bom desempenho, portanto, são boas.
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08/08/2007 |
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Aprecie com moderação
Dar palpites sobre as finanças alheias é um esporte de risco. Mas é quase inevitável depois que se passa um tempo escrevendo sobre “os mercados”. É normal que as pessoas peçam dicas. Dos tios chatos nas festinhas de família aos amigos mais chegados, às vezes em torno de um chope. Coisa de um mês atrás, um companheiro de redações dos mais chegados me contou entusiasmado que estava entrando na bolsa. “Home broker?”, gelei. Tenho visto muita gente boa deslumbrada com a compra e venda de ações pela internet, que te permite manter contato em tempo real com a Bovespa sem tirar o pijama. Todo mundo contente com os lucros embolsados até agora, claro. Ótimo, mas esta é, em grande medida, uma geração de investidores que nunca viu a bolsa cair de verdade. Já faz quatro anos e meio que o Ibovespa sobe que nem um foguete, com turbulências mínimas no caminho. E foi justamente neste período que as pessoas físicas saíram de uma posição irrisória em termos de negócios com ações para um lugar de destaque nos pregões, nos quais respondem por cerca de 23% das ordens de compra e venda que movimentam R$ 4 bilhões diariamente.
Bom, mas essa discussão sobre homebrokers pode ficar para mais tarde, porque o amigo em questão, jornalista dos melhores que já conheci, optara, prudentemente, por um fundo de ações. Beleza. Teria, assim, uma equipe de profissionais trabalhando 24 horas por dia para administrar sua carteira de papéis – o que também não é promessa de lucros eternos, claro. Dei os parabéns a ele, porque, com os juros no atual patamar e caindo, é inevitável correr mais risco para conseguir mais retorno, e a bolsa tem realmente ótimas oportunidades. O susto veio quando perguntei que parcela de seu patrimônio ele estava investindo no fundo de ações. “Cinqüenta por cento”, ele respondeu despreocupado, em meio a uma animada feijoada. Quase engasgo com um torresminho. Faz sentido que um quarentão com dois filhos nas costas, ex-mulher e um estilo de vida de moderada boemia para bancar, que nunca aplicou um tostão no mercado de ações, decida, da noite para o dia, jogar metade de suas economias na bolsa? Para mim, não faz. Para o gerente do banco dele, fazia. Para a moça bonita que o acompanhava naquela tarde – economista de um dos bancos mais eficientes do País –, parecia até pouco. Basta olhar, dizem os otimistas, os ganhos apetitosos conseguidos na Bovespa nos últimos meses, a pujança de um mercado que vive uma febre de aberturas de capital e os fundamentos da economia brasileira, mais sólidos do que nunca. Além do cenário externo, de altíssima liquidez. Ou seja, com dinheiro de sobra disponível nas praças financeiras mais desenvolvidas para investimento nos mercados emergentes.
É aí que a porca torce o rabo.
Quem vê a economia global sem filtros nas lentes, enxerga um futuro tão brilhante que obriga a usar óculos escuros – mais ou menos como dizia uma canção esquecida dos anos 80. Este futuro não é, de modo nenhum, uma miragem. Salvo por uma catástrofe, a economia global deve continuar se beneficiando da globalização – ou, mais concretamente, dos saltos tecnológicos, de produtividade e nos padrões de consumo trazidos por ela, que, tudo indica, estão só no começo. No meio do caminho, porém, há um bruta pedregulho. Rik Kirkland, da Fortune, um dos melhores jornalistas de economia e finanças do mundo, escreveu em junho que eles (a equipe da revista) são otimistas no longo prazo, mas pessimistas no curto. Seus argumentos são: 1) não tem essa de “desta vez é diferente”, ciclos econômicos têm começo, meio e fim; 2) todo boom leva a excessos financeiros que detonam sua reversão.
Jeremy Grantham, autor de uma recente newsletter cujo título é “A primeira bolha verdadeiramente global” diz que há apenas duas condições necessárias para a formação de uma bolha: 1) os fundamentos econômicos devem parecer “pelo menos excelentes – quase perfeitos é melhor”; 2) a liquidez deve ser generosa em quantidade e preço, ou seja, deve ser fácil e barato se alavancar. É, basicamente, uma descrição do mundo em 2007.
Se isto é o suficiente para você acreditar que vivemos, sim, dentro de uma bolha econômica global, a pergunta a fazer em seguida é: “o que poderá estourá-la?”
A primeira ameaça é um “choque de crédito” nos Estados Unidos, propagando-se em tempo real para o mundo. Por que? Porque os mesmos bancos que providenciaram o combustível necessário para turbinar as operações de alto risco com créditos imobiliários de baixa qualidade (o famigerado subprime) e para as compras superalavancadas de empresas por fundos de private equity nos Estados Unidos estão todos com a tesoura nas mãos, esperando um sinal de que as coisas saíram de controle para cortar o fluxo de dinheiro barato. Um “ajuste” assim provocado abalaria as finanças mundiais.
Do terreno do imponderável, vem uma ameaça ainda mais assustadora: a perspectiva de um conflito no Oriente Médio transformar-se em guerra aberta ou, pior, de um ato de terrorismo nuclear. O paralelo com o fim do primeiro grande ciclo de globalização e prosperidade da era moderna, com a Primeira Guerra Mundial, seria, então, inevitável.
É possível, ou melhor, provável que, se ficarmos com a primeira hipótese, de estouro das bolhas de imóveis e fundos de private equity nos Estados Unidos, haverá sol novamente depois da tempestade. Mas será preciso enfrentar a tormenta em algum momento. Se meus conselhos de prudência parecem ingênuos, leia o que diz Hank Paulson, secretário de Tesouro dos Estados Unidos (e ex-presidente do Goldman Sachs). “Vale a pena ser vigilante”, afirmou ele, no mencionado artigo de Kirkland. As leis da “gravidade econômica”, segundo Paulson, não foram revogadas. Logo, a questão “é quando e não se” as bolsas despencarão. O tombo mundial das bolsas no fim de julho e a tremenda instabilidade que se instalou desde então têm relação direta com essas ameaças. Mas, nem de longe, representam seu verdadeiro potencial de devastação.
Isso vale para o mercado brasileiro, o que nos traz de volta ao ímpeto de investimento de risco desse meu amigo. No fim das contas, ele simplesmente desistiu da bolsa. “Você me disse que era perigoso. Eu pulei fora”, me disse ele. Não era essa a idéia – e, definitivamente, não pretendo ocupar o espaço deste blog ditando regras na base do “faça isso”, “não faça isso”. Penso que os investimentos em bolsa, sobretudo os de longo prazo, têm excepcional futuro no Brasil. E acredito que todos aqueles que têm a possibilidade de diversificar suas aplicações deveriam reservar algo entre 10% e 20% de sua poupança para a chamada renda variável. Trocando em miúdos, quando se trata de ações, meu conselho é: “aprecie com moderação”.
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08/08/2007 |
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