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Alexandre Teixeira é editor-executivo de Época NEGÓCIOS.
Vai acompanhar neste espaço as novidades das finanças - sobretudo
as pessoais.
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Remendão pós-CPMF
Pode parecer fácil cortar R$ 38 bilhões de um orçamento de R$ 700 bi. Não é. A rigor, apenas 10% deste total não é receita vinculada a Estados, municípios, saúde, educação, previdência etc. Ou seja, 90% é “imexível”. Sobram os recursos para investimento – o melhor tipo de gasto público, que finalmente começava a crescer no Brasil – e aqueles reunidos sob o guarda-chuva meio fajuto do PAC. Necessariamente, neles estarão concentrados os cortes de R$ 20 bilhões anunciados.
Nos ministérios com grande volume de investimentos previstos para 2008, os recursos fora do PAC são mínimos. No dos Transportes, por exemplo, há R$ 7,7 bilhões para investimento no programa e apenas R$ 391 milhões fora.
Por outro lado, o ministro Mantega descarta aumentar impostos ou criar tributos, caso as medidas já anunciadas não compensem toda a perda com o fim da CPMF. Tudo o que ele antecipou até agora é que, no corte de gastos, os três poderes terão suas despesas reduzidas por igual. Mas os detalhes só serão definidos em fevereiro.
Dito isso, os impactos já antecipados do aumento de impostos são naturalmente negativos. Os bancos dizem que o IOF será repassado aos clientes. Os empresários temem que o pacote afete o crescimento em 2008. E os tributaristas calculam que o IOF pesará mais que a CPMF no crédito. E também na contratação de seguros, que antes tinham alíquota zero.
Dica, um tanto óbvia mas importante: pague à vista tudo o que puder, porque, ao contrário da CPMF, o IOF só encarece os financiamentos. Logo, a mudança atingirá mais diretamente consumidores e empresas que dependem de empréstimos dos bancos.
Segundo estimativa preliminar do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, as medidas anunciadas nesta semana elevam a carga fiscal em 0,3% do PIB, considerando uma expansão (a meu ver exagerada) de 5,2% do produto neste ano. É um número que corrobora a tese inicial de parte dos economistas de que, embora antipático, o pacote terá impacto pequeno sobre a economia. As bolsas ontem estiveram mais atentas ao petróleo – que bateu de novo os US$ 100 e depois recuou – e aos EUA. A Bovespa oscilou bastante, mas fechou “de lado”, com modesta alta de 0,12%.
É cedo, porém, para dizer que o remendão pós-CPMF passou sem deixar vítimas.
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04/01/2008 |
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Arminio e a neve no Rio
Estive com Arminio Fraga, na sede da Gávea, nesta segunda-feira, dia 7. O ex-presidente do BC respondeu 15 perguntas formuladas por leitores de Época NEGÓCIOS – dez para a seção 10 Perguntas Para, de nossa edição de fevereiro, e outras cinco como conteúdo extra para nosso site.
Aproveitei a ocasião para ouvir Arminio sobre a conjuntura econômica e financeira. Ele se sente um pessimista, na comparação com seus pares brasileiros, ao prever que a desaceleração econômica nos EUA pode reduzir o crescimento do PIB brasileiro para algo como 4% neste ano.
Arminio está convencido de que teremos menos crescimento este ano, aqui no Brasil, do que em 2007. E de que o maior fator de risco é a economia dos EUA. Mas não acredita em recessão forte. E sim em desaquecimento suave. Seu ponto é que a economia dos EUA é extremamente flexível – em especial o mercado de trabalho (as pessoas se recolocam com facilidade). Além disso, o Fed já iniciou um processo de corte de juros.
Resumidamente, ele pensa que vai haver recessão, mas não será o fim do mundo. “Às vezes uma desaceleração é bem-vinda. Altos e baixos são um espelho da natureza humana”, diz ele. Grave, é quando o ciclo de baixa é mal administrado. Mas, para ele, não é este o caso. Arminio entende que o Fed tomou a decisão certa em agosto, quando começou a injetar liquidez na economia, para evitar um colapso do sistema de crédito. “Eles entraram de pé trocado, ao dizer que o problema era a inflação. Depois acertaram”, afirma.
Moral da história: o período de céu de brigadeiro acabou. “Agora, é isso aí”, disse ele, apontando para a janela de seu escritório no Leblon. Lá fora, nuvens ameaçadoras encobrem os morros da Gávea, que dá nome à sua gestora. “É feio, mas não está caindo neve no Rio.”
Para mim, o ex-presidente do BC soa tremendamente otimista. Mas a análise por ele esboçada é adotada, com pequenas adaptações, por economistas dos mais diferentes matizes ideológicos. Paulo Nogueira Batista Jr., um pensador heterodoxo e independente da economia, está hoje na Folha, minimizando também o provável impacto de uma recessão nos Estados Unidos sobre o Brasil.
Discordo, um tanto constrangido, é verdade, dado o peso dos nomes envolvidos na discussão.
Já parece certo que haverá recessão nos EUA e, nesse caso, a economia brasileira não tem como não ser prejudicada. Temo que prejudicada o bastante para por em risco a recuperação em curso nos últimos anos. Me espanta que mais gente não esteja pelo menos considerando esta hipótese. Com a maior economia do mundo desacelerando, não consigo enxergar as tais perspectivas positivas para o resto do mundo, emergentes incluídos.
Gente grande como o Goldman Sachs é clara ao prever que os EUA terão recessão (e não apenas desaceleração ou desaquecimento) em 2008. Para o banco americano, o crescimento no segundo e no terceiro trimestres será negativo, e o Fed cortará os juros em quase dois pontos até o fim do ano. O Goldman estima que o PIB americano vai crescer apenas 0,8% neste ano – bem menos do que os 2,7% previstos pelo governo Bush ou que os 2,2% esperados pelo Banco Mundial.
O relatório conjunto da Unctad e do Fórum Econômico Mundial também mostra riscos maiores para a economia global, pelo fato de a locomotiva econômica do planeta estar em processo de frenagem.
Com o mercado de ações caindo e a economia americana flertando com a recessão, muita gente nos Estados Unidos começa a dizer que o presidente do Fed, Ben Bernanke, deveria ser mais agressivo do que tem sido até agora. O New York Times tem boa matéria sobre o assunto hoje. Ela pergunta: será que Bernanke é bonzinho demais para o cargo?
Não sei a resposta. Mas o tom da pergunta, para mim, dá uma boa idéia do tamanho da encrenca.
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10/01/2008 |
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Figueiredo está otimista
Relatei ontem aqui um pouco da conversa que tive com Arminio Fraga na segunda-feira. Hoje, vou falar do bate-papo de dois dias depois com Luiz Fernando Figueiredo, diretor de política monetária do BC na gestão do próprio Arminio, ex-sócio dele na Gávea e sócio-fundador da Mauá Investimentos.
Luiz Fernando faz análise bem parecida com a de Arminio sobre a situação da economia americana e as repercussões, para o Brasil, de sua provável desaceleração. Ele observa que nenhum analista acha que os Estados Unidos vão ficar em recessão um ano. O que se espera é um trimestre, talvez dois trimestres ligeiramente negativos. Ou seja, não é uma virada no cenário à nossa frente. Pelo contrário: o Brasil está indo bem e deve virar investment grade este ano. O PIB vai crescer 4,5% em vez de 5,2%. É ruim? Até é, diria eu, mas nada para se perder o sono. Além disso, Luiz Fernando estima que, mesmo depois dos recordes absolutos de 2007, os lucros das empresas vão aumentar 15%, 20% este ano. O que é muito bom.
Mesmo em relação ao comportamento da Bolsa de Nova York, referência absoluta para a Bovespa, Luiz Fernando é otimista. Ele lembra que no último período realmente ruim para o mercado americano, em 2001, os múltiplos da Bolsa de Nova York estavam em torno de 20%. Acima da média histórica de 16%, 17%. Hoje, eles estão por volta de 13%, 14%. O que significa que, em princípio, as ações já estão relativamente baratas, e não deve haver espaço para grandes quedas.
Taí. Mais um gestor de peso traçando um cenário bastante razoável para a economia e o mercado neste ano. Os pessimistas, como eu, estão ficando isolados. Ainda bem.
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11/01/2008 |
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Se os políticos fossem ações
Dárcio Oliveira, um velho amigo e colega que acaba de se integrar ao time de Época NEGÓCIOS, encontrou um texto divertido na revista eletrônica Slate, que “revela” que tipo de papéis seriam os candidatos à presidência dos Estados Unidos, se fossem ações. Foi postado no dia 4, logo depois do resultado das surpreendentes primárias de Iowa. Ou seja, não é exatamente novo. Mas eu não tinha visto ainda, e achei bem curioso.
Barack Obama, por exemplo, seria uma ação do setor de energias alternativas. Uma “empresa” nova, de última geração, sem medo de enfrentar os líderes de mercado entrincheirados, e apoiada tanto pelos plantadores de milho do Iowa como pelos capitalistas de risco do Vale do Silício e investidores da Costa Leste. A Slate crava forte recomendação de compra.
Hillary Clinton, por sua vez, seria o Citigroup. “Baseada em Nova York, enormemente capitalizada, líder de mercado há muito tempo, cujo nome é sinônimo do setor que domina”, brinca a revista. “Uma potência nos anos 90, está tendo dificuldades para recuperar a glória do passado.” Recomendação: mantenha na sua carteira.
Está todo mundo lá, mas quem se sai pior é o ex-prefeito republicano de Nova York, Rudy Giuliani. Ele é comparado ao banco de investimentos Bear Stearns, justamente o que detonou a crise do subprime, quando revelou ao mercado o tamanho do rombo em seu balanço provocado por investimentos irresponsáveis em títulos imobiliários podres. Diz a Slate, sobre ambos: “Firma baseada em Nova York, passou os anos, desde 2001, levantando dinheiro fácil e rodando o mundo”. Hoje, o mercado tem dúvidas sobre seu caráter. Recomendação: venda.
É só uma brincadeira, claro. Mas é bem divertida, e vale a pena dar uma olhada. Fico só imaginando que ações seriam os políticos por aqui. Alguém se arrisca?
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14/01/2008 |
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Deterioração do cenário
O megaprejuízo do Citigroup derrubou bolsas pelo mundo afora. O maior conglomerado financeiro do planeta amargou no quarto trimestre o maior prejuízo da sua história: US$ 9,83 bilhões. O presidente Lula, em viagem a Cuba, tirou um sarro merecido. Numa frase meio tortuosa, ele disse: “Eles, que davam tanto palpite (na economia brasileira, nos tempos em que o Citi era o negociador da nossa dívida externa), quando chegou a hora de provarem suas competências, eles demonstraram que não têm tanta competência”.
O sorriso, porém, fica amarelo quando se observa que a queda de ontem foi compartilhada pelos principais mercados do mundo, mas afetou mais fortemente o Brasil. A Bovespa caiu 3,67% e já acumula baixa de 6,23% desde o início do ano.
Também não tem muita graça o fato de que o prejuízo do Citi deixou claro que a crise financeira afetou para valer a economia real e, com isso, aumentou o temor de recessão.
A lógica da deterioração do cenário é relativamente simples. Prejuízos gigantes como o do Citigroup mostram que a crise do subprime aumentou a inadimplência e reduziu os negócios no mercado imobiliário americano. Os bancos, em resposta, tendem a emprestar menos dinheiro e a cobrar juros mais altos. Os consumidores, por sua vez, rejeitam as novas condições e demandam menos financiamentos. Com medo de perder emprego e/ou renda, as famílias passam também a consumir menos. As vendas no varejo caem. E está formado o ciclo recessivo. Que o mercado já considera inevitável. E Alan Greenspan – ontem chamado por Paul Krugman de “senhor bolha”, por não ter debelado a alta explosiva e irreal do preço dos imóveis americanos nos últimos, digamos, 10 anos – diz que pode já estar em curso.
Mais uma vez, são fundos estrangeiros que resgatam os bancos americanos. O Citi e a Merrill Lynch receberam injeções de US$ 21 bilhões do príncipe saudita, de um grupo japonês e de fundos dos governos do Kuait, de Cingapura e da Coréia do Sul. Pior: pode não ser o suficiente, já que o presidente mundial do Citi declarou ontem que as coisas ainda podem piorar...
Dado este início de ano sinistro, alguns especialistas já dizem que o primeiro semestre todo está condenado a uma forte instabilidade. Eu falaria em ano, mas já disse que ando mais pessimista que a maioria.
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16/01/2008 |
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Keynesianismo na Casa Branca
Bush anuncia hoje os “princípios” de um pacote para tentar evitar uma recessão nos Estados Unidos. Segundo a Casa Branca, as medidas pretendem elevar o crescimento no curto prazo. De acordo com agências americanas, devem incluir restituição de impostos para indivíduos e abatimentos para empresas. O pacote é defendido pelo presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke.
Afrouxar a política fiscal, permitindo que mais dinheiro “sobre” nas mãos dos consumidores, famílias e empresas é uma típica política keynesiana. A ser implementada por um presidente republicano, sob os auspícios do banco central e os aplausos do mercado financeiro – espera-se uma alta das bolsas no mundo todo, se o pacote for parrudo como se especula desde ontem, na casa dos US$ 150 bilhões.
Historicamente, quando a gente tenta fazer qualquer coisa parecida por aqui – afrouxar a política fiscal para evitar ou atenuar uma recessão –, o bombardeio liderado pelo FMI, Tesouro dos Estados Unidos e pela banca internacional é inevitavelmente pesado.
Mas, convenhamos, o momento não é propício para discussões acadêmicas. A coisa está feia nos Estados Unidos. A construção de imóveis residenciais caiu ao menor nível em 16 anos. E, no setor bancário, começa-se a temer, a sério, que algum colosso financeiro tenha sido ferido de morte pela crise das hipotecas podres. Depois do megaprejuízo do Citi, ontem foi a vez do Merrill Lynch anunciar perdas de US$ 9,8 bi no quarto trimestre.
Como não poderia deixar de ser, as bolsas voltaram a cair pelo mundo. A Bovespa perdeu mais 2,96%. Com isso, já caiu 10,7% no ano – um pouco mais que a Bolsa de Nova York, que acumula perda de 8,3%. O Ibovespa alcançou ontem a menor pontuação desde o dia 20 de setembro passado: 57.036. O tombo é explicado, principalmente, pela saída de capital estrangeiro – R$ 2,3 bilhões até o dia 15. Isso significa que aqueles investidores que, nos primeiros meses da crise do subprime, fugiram para os emergentes em geral, e para o Brasil em particular, em busca de um inusitado porto seguro financeiro, rapidamente mudaram de idéia.
Já não se acredita mais que os BRIC tenham economias tão sólidas que possam permanecer “blindadas” à deterioração do cenário econômico global. Dá-se, então, a chamada “fuga para a qualidade”. Ou seja, o abandono das apostas em mercados “exóticos” – sejam ações de empresas brasileiras, sejam títulos públicos da Tailândia – e a corrida para os incontornáveis títulos do Tesouro Americano, que rendem pouco, mas são considerados os papéis mais seguros do planeta.
Vivemos um daqueles momentos tensos, em que qualquer fiapo de informação é mastigado, digerido e interpretado de modo não raro desconcertante. Ontem, a fala de Bernanke em favor de novos cortes de juros, porém acompanhados de eventuais medidas fiscais, elevou o temor de que a crise nos EUA seja maior do que se imaginava. E ajudou a derrubar as bolsas do mundo todo.
Mesmo assim, no Brasil, continuam prevalecendo as análises otimistas. Segundo as quais, o impacto da crise americana no País será limitado. Voltam à cena, também, os especialistas recomendando sangue-frio ao investidor. Dizem que sacar dinheiro da bolsa agora – seja vendendo ações, seja resgatando investimentos em fundos de ações – é “realizar o prejuízo”.
Eles têm razão. Em parte. Porque a conta não é tão simples. Se os otimistas estiverem certo e o impacto sobre a economia brasileira for reduzido, sair do mercado com a bolsa em baixa terá sido, de fato, um péssimo negócio. Passado este mau momento e estancada a saída de capitais estrangeiros, o Ibovespa voltará a subir, as ações se valorizarão e você, além de ter amargado um prejuízo com a venda de seus papéis, terá de pagar mais caro se quiser voltar a montar uma carteira. Por outro lado, se a situação nos EUA fugir do controle, o pacote keynesiano de Bush provar-se inefetivo e o impacto sobre o Brasil surpreender a maioria otimista de hoje, o buraco da bolsa será mais embaixo. Por essa lógica, sacar dinheiro agora pode significar aceitar a derrota, minimizar os danos e trancar-se em casa (renda fixa, DI, Tesouro Direto, poupança...) até a tempestade passar.
O que é melhor fazer? Tudo agora é palpite. Mas uma ampla maioria de economistas e gestores de investimentos está firme na convicção de que não estamos vendo uma virada no cenário e de que, apesar de muita incerteza à frente, teremos um ano de ganhos.
Semanas atrás, escrevi um post com o título “Pede pra sair!”. Era um momento melhor para liquidar posições na bolsa, com o mercado em nervosa calmaria. Agora, sair tem um custo. Faça sua aposta.
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18/01/2008 |
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A recessão chegou (lá)
Maus presságios para o pregão de hoje, segunda-feira. Não é nada esotérico, não. Ocorre que as bolsas asiáticas despencaram nesta madrugada, e as européias abriram caindo forte. Hoje cedo, na academia (de ginástica e não de Letras nem nenhuma universidade, perdoem), ouvi um camarada do mercado, ao celular com um colega, dizendo que ia abrir o pregão vendendo tudo, para “vender na alta”. Levanto em conta que o Ibovespa já caiu 10% neste mês, só posso entender “vender na alta” como um eufemismo para “antes que as coisas piorem de vez”.
O pano de fundo para esse mal estar de início de semana é a constatação de que tanto o pacote anunciado por George Bush quanto o discurso apaziguador de Ben Bernanke, no fim da semana passada, fracassaram na tentativa de conter a queda das bolsas.
O New York Times, em reportagem publicada na sexta-feira, analisa o quanto este janeiro nos diz sobre os meses por vir. “Wall Street enviou a Washington uma mensagem, afirma o Times. “A recessão que Ben S. Bernanke diz que pode ser evitada já está por aqui.”
O dia de hoje, no mercado, só não promete ser pior, porque é feriado nos Estados Unidos e, portanto, não contaremos com o pregão-referência para o mundo todo. Na ausência dessa bússola, os mercados tendem a se movimentar pouco.
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21/01/2008 |
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Segunda-feira negra
Deu para ver a tempestade chegando. Vinda do Oriente.
O primeiro sinal chegou da Ásia. Todas as principais bolsas da região abriram em baixa esta madrugada. A de Tóquio foi a primeira delas a fechar, com forte queda de 3,86% no Índice Nikkei. Seul veio atrás: -2,95%. Pouco antes de o dia raiar por aqui, a Bolsa de Xangai fechava com perdas de 5,14%.
Ato contínuo, as principais bolsas européias seguiram as asiáticas e mergulharam juntas. Estava criada uma dessas ondas de pânico retroalimentado. Pisca nas telas de computador a notícia: queda em Xangai foi a pior em seis meses? Por que? Porque as bolsas asiáticas estavam fechadas, na sexta-feira, quando Wall Street decidiu que o pacote anti-recessão de Bush era decepcionante, e a Bolsa de Nova York despencou. Hoje, portanto, era dia de se ajustar, para baixo. O tombo asiático, por sua vez, assustou os investidores europeus, que já na abertura do pregão, trataram de disparar ordens de vendas.
Na sexta-feira, a Bovespa ignorara Nova York e fechara com ganho. Seria possível resistir à globalização do pessimismo?
Por volta das nove da manhã, começava a ficar claro que não, não era mais possível. O dólar abriu em alta de 2%, refletindo a tensão no ar. Há menos de duas horas da abertura do pregão, começavam os rumores de vendas fortes já na abertura. E os juros futuros subiam forte na BM&F.
Às 10 horas, Frankfurt já caia mais de 5%. Paris, mais de 6%. Mumbai, 7,41%. O índice futuro da Bovespa anunciava a tempestade em formação.
O mergulho começou às 11 horas em ponto, assim que o pregão abriu. Queda de 5,50% em dez minutos. Em uma hora, o Ibovespa estava reduzido a 54 mil pontos. E o dólar, cotado a R$ 1,82.
Entra em cena a brigada de bombeiros das finanças, pedindo “sangue-frio e paciência”. A água fria, porém, é insuficiente diante de um mercado convencido de que a crise financeira, definitivamente, atingiu a economia real.
Antes das três, começam a chegar os assustadores números finais da Europa. A queda em Paris é histórica: 6,83%. Em Frankfurt, o tombo chegou a 7,16%. Em Madri, a 7,54%. São os piores resultados das bolsas européias desde o 11 de setembro de 2001. O diretor-gerente do FMI, Dominique Stauss-Kahn, vem a público declarar que a situação econômica do mundo é “séria”. Transcorrida metade do pregão, a queda do Ibovespa é de 6%.
Com o dólar em alta de 2,68%, o BC anuncia um leilão de compra de moeda. Mesmo assim, o dólar fecharia a R$ 1,83, maior cotação desde agosto. Meirelles diz que o Brasil não está imune à crise dos EUA. Mantega “garante” que o Brasil está preparado para a crise. Lula se diz tranqüilo e, mais uma vez, cobra ação dos EUA.
Às cinco da tarde, o dia de hoje já ganhou um apelido: segunda-feira negra. Uma hora depois, o pesadelo dos operadores de São Paulo está terminado. Por hoje. A queda final foi de 6,6%. O acumulado do ano chega a – 16%.
Foi um tombo fenomenal – e surpreendente por ter se dado mesmo com o feriado nos EUA. As empresas listadas na Bovespa acumulam agora uma perda conjunta de R$ 344, 9 bilhões em valor de mercado neste ano.
Muita gente não vai dormir hoje. Remoendo prejuízos e contando as horas para a abertura da Bolsa de Nova York amanhã. Se os americanos mergulharem no pessimismo, o chão sumirá sob nossos pés. Se ficarem firmes, há chance de estancar o pânico.
Boa noite e boa sorte.
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21/01/2008 |
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Sob pânico, não se mova
Estou há dois dias mergulhado na apuração de uma reportagem para Época NEGÓCIOS sobre os impactos da crise financeira que vem dos Estados Unidos na economia brasileira. Isso explica – ainda que talvez não justifique – o sumiço desde a noite da “segunda-feira negra”. Interrompo por alguns minutos este trabalho para compartilhar as análises que tenho ouvido de muitos e bons economistas. A mensagem é tranqüilizadora, o que pode ser útil já que a Bovespa despenca novamente.
Do ex-BC Carlos Langoni ao “heterodoxo” Júlio Sérgio Gomes de Almeida; de Paulo Rabello de Castro a Paulo Guedes, há um quase consenso de que os impactos reais da crise serão limitados. Quem me lê sabe que tenho sido cético em relação a isso. Mas numa hora grave como esta, quero dizer que estou convencido de que há bons motivos para manter a calma.
No cenário amplamente predominante, o crescimento do PIB brasileiro cairá apenas de 5,2% em 2008 para 4,5% em 2007; a Selic ficará onde está (ou um pouquinho mais baixa) e o dólar não passará muito de R$ 1,80. Ou seja, muito pouco mudará, neste ano, na economia real.
Ninguém minimiza a crise americana. Quase não se encontra mais quem acredite no “descolamento” do Brasil em relação aos EUA. Mas o equilíbrio de nossas contas externas, as reservas cambiais de US$ 185 bilhões e nosso mercado interno aquecido, com inflação sob controle (ainda que no limite da banda), parecem suficientes para nos proteger do choque externo.
A mensagem, então, é: o avião vai balançar pra valer, mas não corre o risco de cair. E não vai se desviar muito da rota planejada no fim do ano passado.
Para quem está exposto às oscilações da bolsa, este é um consolo relativo. Os altos e baixos violentos desta semana, infelizmente, vieram para ficar por um bom tempo. Vale, então, o conselho dado pelo economista Joaquim Elói de Toledo, da USP e do banco Nossa Caixa: “Sob pânico, não faça nada. Há o risco de a economia estar fazendo ziguezague e você, zaguezigue”.
Toledo lembra que quem ganha dinheiro no mercado compra na baixa e vende na alta. “E só consegue fazer isso porque os tolos se movem na direção contrária.”
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23/01/2008 |
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Razões para ser otimista
Nas grandes crises, o índice S&P da bolsa americana, visto do pico ao vale, caiu 30%. Hoje, ele está há uns 15% do pico. Nada tão dramático, portanto. Além disso, as empresas americanas nunca estiveram tão capitalizadas. Nos últimos anos, aumentou muito a parcela das receitas delas vinda do exterior. Na média, 40%. Por estarem mais internacionalizadas, essas empresas vão sofrer menos. Mais: o nível de preço de suas ações comparado com o lucro já estava abaixo da média histórica antes do agravamento da crise. O chamado múltiplo era de 20 vezes em 2001. Hoje, a média está em 13 vezes. Moral da história: não devemos estar muito longe do piso. É unânime que as ações americanas já estão baratas, mesmo considerando a redução dos lucros este ano.
O Fed nunca havia feito numa reunião extraordinária um corte tão forte dos juros (0,75%). Ainda que insuficiente, a medida atenua a crise.
A leitura oposta (de que o corte vigoroso e intempestivo significa que a crise é mais grave do que se imaginava) é válida. Mas a sensação era de que o BC americano estava atrasado em relação ao mercado. Agora é o contrário.
As ações brasileiras estão baratas. Principalmente as de baixa e média liquidez, que já caíram coisa de 30% este ano. E já tinham caído no ano passado. Se tirar Vale, Petro e bancos da conta, o Ibovespa não se recuperou desde o baque de agosto. As ações de segunda linha podem ficar muito tempo baratas? Podem. Mas não é o cenário mais provável.
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24/01/2008 |
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Sobre o "descolamento"
O diário International Herald Tribune deste último fim de semana traz na seção Your Money uma bela reportagem sobre estratégias de investimento sob o título “Descolamento: Teoria versus realidade”.
O abre do texto de Conrad de Aenlle é provocativo: “Ninguém pode dizer quanto foi perdido por investidores baseando decisões em estratégias não provadas que funcionam em teoria, mas o volume tem crescido significativamente. À medida que trilhões de dólares foram arrancados do valor de ações globais nesta semana, “o descolamento” tornou-se a mais recente grande idéia a afundar dramaticamente quando testada no mundo real”.
Descolamento, como você deve estar careca de saber a esta altura, é a teoria segundo a qual as economias emergentes teriam condições para sobreviver incólumes à passagem do furacão recessivo América e, mais do que isso, garantir boa parte da demanda perdida com a desaceleração da economia dos Estados Unidos.
A reportagem do Tribune nota que a tese começou a fazer água quando se notou que as ações das empresas do mundo emergente caíram tanto ou mais do que as das companhias americanas no crash da semana passada. Por alguns motivos.
Entre eles, o fato de que “justamente as exportações respondem por grandes porções da atividade econômica naqueles lugares (os países emergentes), mas isso não deveria mais importar em um mundo 'descolado' porque a atividade doméstica era considerada tão robusta”.
Não deveria, mas importa, já que, como observa Jeff Applegate, principal executivo de investimentos do Citi Global Wealth Management, “a interdependência global das economias está crescendo e não caindo”. Assim, “a noção de que os EUA podem entrar em recessão sem efeito negativo no resto do mundo não se sustenta”. É este, também, o ponto de Andrew Foster, chefe do departamento de análise de ativos da Matthews International Capital e especialista em mercados asiáticos. “A ironia é que essas economias (emergentes) estão mais coladas ao resto do mundo do que em qualquer outro momento no passado”, diz ele. “É por isso que elas estão tão fortes, e isso permitiu a elas se tornar mais independentes.”
Embora crítica à teoria pura do descolamento, a reportagem do Tribune mostra que os gestores americanos apostam bastante em certas ações de empresas de países emergentes. Tim Guinness, presidente e principal gestor da Guinness Atkinson Asset Management, se define como alguém que acredita moderadamente no descolamento. Seu mercado favorito para investimentos é a China – mas não neste momento. “Ele prefere mercados de ações menos “borbulhantes” (no sentido de com menos bolhas), em economias emergentes onde a demanda doméstica é forte, como a Coréia do Sul e a Tailândia”, diz o diário. Entre seus papéis favoritos, um é brasileiro: a Cemig.
A reportagem é completada com um lembrete da teoria que afirma que ações devem ser compradas quando a economia é declarada em recessão. É quando os bancos centrais mobilizam esforços para reativar os negócios e as boas empresas ganham velocidade para subir.
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28/01/2008 |
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